Opinião
Notas de um viajante
Praticamente isolado do mundo durante quatro dias, retorno ao continente depois de participar de um curso avançado de neurointensivismo em trauma de crânio. Abordando desde os aspectos gerais e até os revolucionários, o evento cumpriu seu papel. A originalidade começou pela escolha do local: o centro de convenções do transatlântico Armonia, poderoso monumento flutuante de 13 andares. Líder de estatísticas das causas de morte entre jovens, nunca é demais mergulhar na intimidade do traumatismo cranioencefálico para tentar penetrar nos seus mecanismos, muitos deles ainda envoltos em densas penumbras. Sempre oportuna, os lados sombrios de uma atualização científica nesses moldes são o preço elevado e algumas convicções. Dentre as certezas, cito duas. A primeira é que o investimento jamais será coberto, pela simples razão da aviltante tabela de honorários médicos do SUS, cujo valor de consulta é em torno de seis reais. A segunda certeza refere-se às determinações do Imposto de Renda, que tem como regra ignorar solenemente despesas com instrução. Trocando em miúdos, vivemos num País onde gastar com instrução é uma atividade que não só não é reconhecida, como desestimulada. No fim de tudo, temos de concordar com uma das máximas da esquerda que costumava definir o empenho em assimilar mais conhecimento como ?sonho cultural burguês?. De qualquer maneira, muitos colegas neurocirurgiões chegam ao outono da existência ainda alimentados pela chama do ?sonho cultural burguês? sem qualquer esperança de adicional vantagem financeira, aqui e acolá ainda tendo o desprazer de ser peitado por gente sem qualificação profissional. É claro que o navio não é um seminário de beneditinos. Nos intervalos, houve chance de apreciar detalhes das belezas arquitetônicas interiores (algumas em trajes de banho) e as exteriores. Nesse aspecto, não é possível deixar de mencionar o complexo insular de Angra dos Reis, onde se destaca a famosa Ilha Grande, que ? penosas lembranças ? ?hospedou? figuras egrégias, inclusive os alagoanos Graciliano Ramos e Sebastião da Hora. Lamentei, por conta do horário das sessões, não participar de um passeio pelas históricas trilhas da ilha. Apesar do teor anodínico que a solidão provoca, há de se reconhecer que o navio é modelado para o prazer. A nota melancólica foi a ausência da família, dos netos. Sem grilos, certamente eles iriam aproveitar a travessia em tempo integral. (*) É médico e professor da Ufal.