Opinião
O beijo e o abra�o do poeta
Ex-presidente da Academia Alagoana de Letras, autor dos livros Desencontro, Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas e do festejado A Ilha, considerado um clássico da poesia alagoana, o poeta Carlos Moliterno estaria completando hoje 96 anos, e se estivesse vivo, não tenho dúvida que, mesmo com a idade avançada, ele comemoraria o aniversário com os amigos, tomando, ao menos, uma dose de uísque, bebida que degustava por prazer e, em certas ocasiões, para desinibir, pois era muito tímido. Jornalista e crítico literário, Carlos Moliterno era uma figura humana cativante, bem humorada e amável, sobretudo, com as mulheres. No livro de estréia Desencontro, publicado em 1953, encontram-se várias trovas que revelam a fama de galanteador do poeta: ?Teus olhos de luz radiante, / Prenderam minha alma inquieta, / Por eles me fiz amante, / Por eles me fiz poeta?. ?Eu me vingo da saudade, / De modo muito diverso, / Pois levo o tempo, querida, / Sofrendo e fazendo verso?. Fui seu colega de trabalho e amigo durante mais de 30 anos, e com ele participei de alguns eventos sociais, especialmente os promovidos pelos funcionários do Sindicato do Açúcar. E foi num desses encontros festivos, na década de 80, que, ao deixar o local da comemoração, o poeta despediu-se das mulheres, assim: ?Jovens, até amanhã! Considerem-se todas osculadas e amplexadas!?. Ocorreu que nenhuma das cinco ou seis jovens senhoras ali presentes entendeu o que ele havia dito, ou seja, ninguém sabia o que queria dizer osculadas e amplexadas. Então, ficou estampada a perplexidade no semblante de cada uma. No dia seguinte, quando cheguei para trabalhar, logo ouvi de uma delas, antes mesmo do tradicional ?bom dia?, a seguinte pergunta: ?Barroso, o que foi aquilo que o ?seu? Carlos disse, ontem, quando foi embora??. Depois de explicar à colega que a palavra osculada significava beijada e que amplexada era o mesmo que abraçada, ela começou a rir e sentenciou: ?O ?seu? Carlos é uma graça!?. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, o autor da letra do Hino de Maceió, falecido no dia 19 de maio de 1998, deve ser sempre lembrado para que as novas gerações conheçam um dos nomes mais importantes da cultura alagoana. (*) É advogado, membro da Academia Maceioense de Letras e da Comissão Alagoana de Folclore.