Opinião
Or�culo da chuva
Na época do regime militar, existia um ministro denominado Mário Andreazza. Ocupava a pasta do Interior e acumulava também a função de coronel do Exército. Era um homem imponente em seu maciço porte de militar. Largo como uma porta, impressionava com a exuberante cabeleira branca, olhos puxando para verde-cinza e uma tez bronzeada. Ainda hoje me questiono sobre como ele mantinha aquele bronze perpétuo. Dir-se-ia que parecia uma escultura que tinha descido de um pedestal. Contam ? não sei se é verdade nem tenho como averiguar ? um fato singular em que ele foi o protagonista. Por ocasião de uma enchente, provocada por torrenciais chuvas despejadas na bacia do Rio São Francisco, o ministro é destacado para atender e socorrer as regiões atingidas. Chega o ministro em Januária, um dos municípios assolados pela catástrofe, situado à margem do rio, em Minas. Averiguando os danos, cercado de assessores e curiosos, ouve de um matuto ? segurando com as duas mãos um chapéu de palha, encostado de cócoras a uma árvore e mascando fumo ? uma afirmação que o deixa abismado: ?Sinhô, eu tava certim que isto tava pra acontecer?. O coronel-ministro, polidamente, vira-se, perfila-se e indaga: ?Como, meu caro, você tinha esta certeza tão firme?? E o matuto: ?Prumode o jacaré-de-papo-amarelo foi s?imbora fazer o ninho alhures, arribou a serra, longe do rio?. O ministro abre a boca em um esgar de perplexidade e retorna ao carro. Um ano após, em Brasília, estão, o ministro e seus assessores, reunidos e sitiados pelos mesmos problemas e angústias: vai ou não vai chover? Os técnicos e assessores não chegavam a um consenso. Uns afirmavam: ?Vai chover forte porque o satélite...?. Outros discordavam: ?As estações meteorológicas dizem o contrário e...?. O coronel Andreazza, em um desespero atroz, suplica: ?Pelo amor de Deus, cheguem a alguma conclusão!? A algaravia continua. Confusão alucinante. Ninguém na sala se entende. Subitamente, ouve-se uma tapa na mesa, seguida de um berro estrondeante, parecido ao de um trovão: ?Chega!?. Todos ficam petrificados, parecendo estátuas. O coronel levanta-se bruscamente, torna a sentar, fita a todos de forma sombria. Com seus olhos soltando faíscas, chama um ajudante de ordem. Uma das estátuas se move, diligentemente, em sua direção: ?Pois não, meu coronel?. O coronel, recobrando a serenidade, ordena triunfalmente: ?Apanhe um helicóptero e dispare para Januária. Procure o matuto e indague a ele onde o jacaré-de-papo-amarelo construiu o ninho?. (*) É diretor de operação da Casal.