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As nossas crianças .
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Miguel Torga escreveu: “Só havia três coisas sagradas na vida: a infância, o amor e a doença. Tudo se podia atraiçoar no mundo, menos uma criança, o ser que nos ama e um enfermo. Em todos esses casos a pessoa está indefesa”. Sidney Farber era um jovem médico que trabalhava no Children´s Hospital de Boston na década de 40, quando as crianças acometidas de Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) depois do diagnóstico morriam dentro de alguns dias ou meses.
Farber, inconformado com aquela situação, realizou um ensaio clínico com a substância aminopterina, incluindo 16 crianças com LLA, obtendo remissão em 10 delas. Era a primeira vez que a Medicina obtinha sucesso no tratamento das leucemias. Nascia ali a quimioterapia. Entre as peculiaridades dessa etapa heroica da luta nas trincheiras da Medicina para salvar vidas, em especial das crianças, estava o fato de que Farber usara conhecimentos adquiridos com os ingleses, vítimas dos alemães na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Os alemães usaram o gás mostarda, que causava lesões na pele, irritações nos olhos e mortes. Os exames e necropsias dos expostos apresentavam uma redução na contagem de leucócitos e uma diminuição considerável das células da medula óssea e dos órgãos linfáticos. Esses achados, principalmente os da medula óssea, chamaram a atenção de médicos e farmacêuticos.
Desde a época de Farber, o tratamento do câncer e, em especial, o das crianças – ele é a segunda causa de morte infantil no mundo, abaixo apenas dos acidentes - teve um avanço imenso. Atualmente, cerca de 20% dos cânceres infantis ocorrem nos países desenvolvidos e obtêm-se a cura de 80% deles - algumas leucemias são curadas em 90% dos casos -, mas 80% dos cânceres infantis ocorrem nos países mais pobres, onde a cura só é alcançada em 20% dos casos. As maiores dificuldades estão no diagnóstico e no acesso aos centros especializados, sacrificados pela ausência de subsídios para o custeio dos tratamentos, que embora ofereçam melhores resultados do que os cânceres dos adultos, são caríssimos.
Precisamos estar atentos aos sinais e sintomas, como os caroços e dores pelo corpo, as anemias, febres prolongadas e a prostração injustificáveis. Recentemente, tivemos um grande alento nessa saga para aprimorar o tratamento do câncer infantil, que é complexo, exige, além de quimioterapia, cirurgia especializada e radioterapia de alta tecnologia - a Santa Casa de Maceió, a referência do Ministério da Saúde, oficializou um convênio com o Hospital de Câncer de Barretos e o Saint Jude´s Hospital dos EUA para tratar essas crianças.
Pasteur escreveu: “Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura pelo que é e respeito pelo que pode vir a ser”. Como poderemos aceitar o que ocorre com aquelas crianças que passam fome e são exterminadas brutalmente na Faixa de Gaza?