Opinião
Su�cia ensolarada
Alagoas vive momento sui generis. Segundo o economista Cícero Péricles de Carvalho, nossa terra estaria em clima de boom de atividade econômica por conta do polêmico programa do governo federal conhecido como Bolsa Família. Para muitos, via de redenção da pobreza, instrumento de redistribuição de renda; para outros, uma fábrica de malandros, no mínimo, uma alegoria de cunho francamente eleitoreiro, o fato é que, para Carvalho, nunca se viu tanto desenvolvimento. São 350 mil famílias beneficiadas por 76 reais dominadas por incoercível furor consumista. Não obstante a tímida divulgação local, o cientista teve seu trabalho reconhecido no exterior, sendo destaque na revista inglesa The Economist, fato que ensejou elogios na imprensa nacional, culminando com entrevista publicada no blog do fanhoso Paulo Henrique Amorim. Por isso, é questão moral torcer por uma quota menos recatada, digamos, mais republicana, em torno de 500 ou 1000 reais, e uma participação mais audaciosa que englobe cerca de um milhão de famílias. Nesse horizonte, o nosso rincão iria finalmente alcançar o sonhado nível de consumo de uma ?Suécia ensolarada?. De outra parte, o desmantelamento (provisório?) do esquema de desvio de verbas da Assembléia pode ter seqüelas. Sim, porque de repente, foram retirados de circulação cerca de 40 milhões de reais por ano, montante que certamente dará um sopapo na nossa economia, mesmo levando em conta a espantosa prosperidade gerada pelo Bolsa Família. No fundo, há quem fique nostálgico sem essa gente nos endereços badalados da província. Afinal, restaurantes vips estarão com suas mesas às moscas; lojas de automóveis importados verão seus produtos enferrujarem; gravatas, ternos e confecções femininas de grifes famosas mofarão nas vitrines. Adeus coberturas de luxo e condomínios fechados. Jóias, perfumes, ?los puros??, viagens ao exterior, nem pensar. No máximo, um fim de semana em Gravatá regado aos velhos Teacher e Quinta do Morgado. A essa altura, quem ousará consumir champanhes francesas e vinhos encorpados? Hoje, a bagaceira só não é maior porque ajeitaram os salários dos aspones dos gabinetes. A Suécia ensolarada está fervendo. Na enxurrada, sobrou lama para o ex-governador Ronaldo Lessa. Com efeito, José Costa, velha raposa dos tribunais, resolveu dar nome aos bois. Enquanto a Justiça ensina que o ônus da prova cabe ao acusador, a opinião pública já intuiu o veredicto. (*) É médico e professor da Ufal .