Opinião
Por que somos penta?
ENILDO MARINHO GUEDES * Por que somos penta? Porque somos os melhores do mundo. Quando um fato acontece apenas uma vez, pode ser um lance de sorte. Mas quando o fato acontece com regularidade, como a participação da Seleção Brasileira nas finais de Copa do Mundo, passa a ser um fenômeno a ser explicado, um achado que instiga a curiosidade dos estudiosos do gênero humano. Quatro seriam as explicações provisórias que ousariam suscitar para reflexão. Duas estruturais: a biológica e a antropológica; e duas funcionais: a do futebol e a do emocional. Primeira: temos uma cognição (inteligência) motora melhor que a dos adversários. O ato de dominar a bola, de chutar com precisão, de cabecear, entre outros, é regido por uma interação mente-músculo que diferencia os bons jogadores dos demais. Imaginemos uma bola cruzada de um lado do campo para a área e um artilheiro conseguindo fazer o gol de cabeça. Imaginemos, também, um físico fazendo os cálculos da trajetória do vetor, da desaceleração do atrito do ar, da parábola que o vetor descreve, da rotação, enfim, daquele fenômeno. Cálculo e tempo seriam necessários para tal façanha. A mente do artilheiro faz isso num milésimo de segundos, coloca a cabeça no local e com a força necessária para tirar o goleiro da jogada e fazer o gol. A coordenação motora refinada para esse feito não se adquire apenas com o treino, caso contrário faziam-se craques nos laboratórios de educação física. Alemães, americanos e japoneses certamente já teriam feito tal proeza. O fato é que a inteligência humana é múltipla. Fala-se que o Garrincha seria reprovado em qualquer teste de inteligência geral, mas era um dos melhores em inteligência motora. O time dos físicos, matemáticos, músicos, lingüistas não nos trariam o penta. Portanto, os indícios estão sinalizados que o mulato brasileiro tem uma inteligência motora privilegiada. Segunda: a forma de vida dos brasileiros possibilita o futebol arte. Para o futebol ser jogado, bastam uma bola de meia e um terreno baldio. Todas as camadas sociais jogam futebol. Na periferia de qualquer cidade encontram-se dezenas de campos para a pelada da tarde. Nessas peladas, não é o resultado o mais importante, mas a diversão. Driblar o adversário gera prazer, que se prolonga com o bate-papo de fim do jogo. É desse laboratório natural que tem sido formada a maioria dos craques, quase todos surgidos nas camadas mais pobres da população. Terceira: o novo futebol exige vigor físico e todos têm que marcar e retomar a posse da bola. As equipes adversárias, conscientes de que não dispunham de gênios do futebol para criar a arte, especializaram-se naquelas atividades onde a genialidade não é tão exigida: a destruição das jogadas. Formam fortes defesas e exigiram maior vigor físico dos atletas. O futebol arte que a seleção retirou de 1974 até 1990 não obteve sucesso diante de defesas fortes, de equipes fechadas e bem armadas que faziam gol nos contra-ataques. Perdemos cinco Copas seguidas. A composição de uma defesa forte, de um meio de campo combativo e de um ataque que também defende, inseriu na seleção o amálgama da arte com o vigor, do talento com a forte marcação sem violência. O resultado foi a vitória. Quarta: a competência emocional de um grupo, nesse caso liderado por Felipão. O comandante tentou selecionar os melhores e mais disciplinados para a convivência durante a temporada. Elemento desagregador, estrela que não conhece o trabalho dos companheiros, jogador afetivamente instável não foi convocado. ?É melhor perder um boi do que uma boiada?. A tarefa era difícil. Só um grupo unido e disciplinado poderia obter sucesso. União e disciplina em um grupo só com exercício de uma liderança honesta, democrática, vigorosa, leal. Muitas outras explicações poderiam ser levantadas, acredito que essas quatros são as principais. A sua confluência gerou o penta. Nossa raça, vivendo sob o sol dos trópicos, correndo ao ar livre como nossos ancestrais; quando orientados na tática do futebol moderno e liderada com sabedoria, é insuperável. Penta neles, Brasil!. (*) É PROFESSOR-DOUTOR - CHLA/UFAL - ESTUDIOSO DA COGNIÇÃO HUMANA.