Opinião
De pediatras e cubanos
| RONALD MENDONÇA * Em pleno regime militar, os médicos resolveram dar uma peitada na ditadura exigindo melhores salários. Na verdade, se cotejado com o padrão atual, naquele momento recebia-se pelo menos quatro vezes mais. No entanto, a classe entendeu que havia distorções e fez a greve. O preço da vitória foi a profética fala do coronel Passarinho: ?Daqui a alguns anos terei médicos a preço de banana?. E foi aí que começou a proliferação de faculdades de medicina. Hoje, pagando misérias aos médicos, ainda que em estado de gozo por uma aprovação de 55% da população, o governo humilha quem o consagrou, acocorando-se diante do mísero culicídio conhecido como aedes aegypti, o popular mosquito. Não se trata de fato isolado, ?acidente de percurso?. O leitor deve lembrar que há seis meses a medieval febre amarela aterrorizava o centro-oeste. Hoje é a população do Rio de Janeiro que, acuada com a dengue, paga o pato. À boca larga, fala-se em contenção de verbas e desvios na aplicação dos recursos. Há quem tema a generalização País afora. É óbvio que a bagaceira tem tripla paternidade. No desespero, Sérgio Cabral, governador do Estado e um dos pais da epidemia, mostrando-se indignado com a falta de profissionais, ameaçou importar médicos cubanos. Abro parêntese para contar uma história. Por ocasião do aniversário da filha, estudante de medicina em Cuba, um amigo levou daqui duas garrafas do uísque J. Walker, o ?vermelho?. Já na ilha, para a comemoração, foi convidado um dos jovens professores da faculdade. De cara, o cubano emocionou-se com o velho red, pois só o conhecia de fotografia. Sonho de consumo recalcado, o ilhéu enfiou a cara na bebida. Lá pras tantas, já ramado, o filho da revolução deixaria em pânico o estrangeiro. Pondo de lado as prudentes convicções patrióticas, agarrou-se ao alagoano a lhe implorar que o retirasse daquela maldição. Para tanto, propunha-se a trabalhar o resto da vida sob sua tutela. A epidemia de dengue no Brasil também expôs uma ferida já conhecida nos meios acadêmicos: os pediatras estão minguando. Com efeito, os atuais estudantes de medicina já não se sentem tão inclinados pela não valorizada pediatria. Mantendo distância de propostas salariais indignas e do vilipêndio dos valores pagos pelo SUS, a preferência tem recaído em áreas menos sacrificadas. No fim, mantida a intenção de importar cubanos, vamos torcer para o apreciador do red realizar seus sonhos de liberdade. (*) É médico e professor da Ufal.