Opinião
A voz das ruas
| CLÁUDIO VIEIRA * O amigo Eduardo Magalhães disse-me outro dia ter estranhado minhas duas últimas crônicas. Teriam sido, segundo sua correta avaliação, áridas, secas, talvez reveladoras de desencantos. A acuidade do cientista político levou-me a refletir sobre a observação. Reli as crônicas e, realmente, nelas havia sinais de aridez. Contudo, aquilo que ali pode ser considerado ácido, é resultado da contaminação ? saudável contaminação, diga-se logo ? da oitiva da voz cáustica das ruas, afinal inflamadas diante dos desmandos de deputados estaduais, comprometendo de vez e, prenuncia-se, duradouramente, a imagem de um dos poderes em que se baseia o sistema republicano de governo, tão laboriosamente engendrado pelos iluministas, como o Marquês de Montesquieu e o americano Thomas Jefferson. ?Há males que vêm para o bem? é dito popular corrente, que revela o espírito otimista do ser humano, sempre esperançoso nos dualismos: ao mal se contrapõe o bem, ao mau o bom, à feiúra a beleza, etc. No caso da débâcle ética da Assembléia Legislativa, o Poder Judiciário alagoano assomou como depositário das esperanças populares e com galhardia cumpriu esse papel. A voz das ruas, então, da rouquidão passou à jovialidade emocionada no agradecimento. Outros benefícios também decorreram dos eventos mal digeridos pelos alagoanos. O Ministério Público, afinal, assumiu a defesa da sociedade civil. E a fez de forma apaixonada, o que dá caráter de irreversibilidade ao fato. É antiga lição dos filósofos que aos advogados impõe-se a paixão pela causa que abraçam e pela tese que sustentam. E o Ministério Público não é composto de advogados da cidadania, assim como nós, os advogados profissionais? O Executivo também não ficou imune à voz das ruas. Com o senso da exata defesa dos interesses públicos, o governador já pretende ? e determinou a medida ? a redução do tão discutido duodécimo da Assembléia. E fez mais, revelando a sensibilidade que dele se espera: destinou os valores, a serem deduzidos do Legislativo, à segurança e educação públicas, bem como a outras áreas de real importância para a população. À Assembléia Legislativa, diante dessa renovação purificadora dos outros Poderes, resta abandonar o fútil discurso de que o projeto de lei do Executivo veio a destempo e, contrapondo-se ao descalabro intestino, abdicar dos excessos financeiros, devolvendo-os aos projetos de real interesse público. Será o indicativo da redenção necessária. *) É advogado militante. (www.claudiovieira.com.br) e ([email protected])