Opinião
A igreja e o mundo
| DOM EDVALDO G. AMARAL* Na famosa Carta a Diogneto, de autor desconhecido do segundo século da era cristã, com grande propriedade, assim são descritos os cristãos daquele tempo: ?Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria, nem pela língua, nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar e a sua vida nada tem de extraordinário. O seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam suas pátrias mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. Nenhum daqueles que os odeiam sabem dizer a causa de seu ódio.? Na Última Ceia, Jesus diz ao Pai: ?Eu dei [aos discípulos] a tua palavra. O mundo os odiou porque eles não são do mundo como eu não sou do mundo.? E repete: ?Eu não rogo que os tires do mundo mas os guardes do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo? (Evang. de João, cap. 17, vs14 e 15). Assim, a Igreja de Jesus está no mundo, mas não é dele. Ela pode, tem o direito e deve pronunciar-se a respeito dos problemas que atingem o ser humano, sobretudo no que se refere à vida. Não é assunto ?religioso?, é assunto do homem. Os católicos, eleitores e contribuintes devem pronunciar-se toda vez que está em jogo a dignidade da pessoa humana, o direito inalienável da vida, a justiça, a verdade, o bem público, os deveres dos governantes e dos cidadãos. Mesmo que o mundo pense diferente. Se encerra hoje em Itaici-SP, a 46ª Assembléia Geral do Episcopado, na qual bispos do Brasil refletiram, além de assuntos religiosos, também sobre problemas que atingem o homem brasileiro: eleições, injustiças sociais, bispos ameaçados de morte, problemas da Amazônia, etc. Queremos afirmar com vigor e coragem evangélica nossa intransigente e radical defesa da vida (como proclama a Campanha da Fraternidade deste ano), seja ela em seu nascedouro no seio materno, fruto do amor e não de experiências científicas, até o seu término natural. Mas, por isso, os cristãos que estão no mundo, e não são do mundo (como disse Jesus), são odiados e condenados, como já o eram no 2º século de nossa era. (*) É bispo emérito de Maceió.