Opinião
O corvo, a raposa e a ministra
| RONALD MENDONÇA * Segundo Machado de Assis, ?o elogio faz bem não só ao corpo, mas também à alma?. E arrematava: ?as melhores digestões de minha vida foram oriundas de jantares onde fui homenageado?. Quem comungava apenas em parte dessa idéia era o ex-escravo grego Esopo, ainda no século 6 antes de Cristo, ao criar a excelente fábula O corvo e a raposa. Tido como o pai desse gênero literário que utiliza recurso de dar voz a bichos em situações de dilema, Esopo atravessou os séculos com historietas atemporais e didática francamente moralista. Só para recordar, determinada a levar um pedaço de queijo que o corvo mantinha preso no bico, a raposa usou todo seu encanto verbal, fazendo-se admiradora das qualidades canoras da sombria ave, comparando-as às do rouxinol. Completamente apaixonado pela própria voz, sabidamente medonha, o corvo esqueceu da preciosidade que mantinha no bico e ensaiou soltar a horrenda, instante em que o queijo caiu, sendo rapidamente abocanhado pela ardilosa raposa. De repente, corvos e raposas voltam a ser personagens vivos. Em lua-de-mel com a popularidade, o presidente Lula sentiu-se no direito de empurrar a ministra Dilma Roussef como grande promessa para substituí-lo. É claro que o País carece de lideranças. No próprio partido do presidente, mesmo sem levar em conta o desgaste por sucessivos e cabeludos escândalos, nunca houve quadro com cacife para empolgar a população. Por isso, talvez, os confetes de Lula na ?mãe do PAC?. De qualquer forma, só podia ser piada ou muita cara-de-pau querer empurrar uma mulher enjoada, segundo a imprensa, esporrenta, sem qualquer carisma (cuja história pregressa de ?guerrilheira? resume-se numa participação de roubo na casa da ex-amante de Ademar de Barros), como palatável. Piada ou não, o fato é que em todo discurso presidencial, o nome de Dilma Roussef era bombado como mulher extraordinária e incansável que estaria suando sangue pela nação durante 12, 14 horas por dia. Foi aí que a entourage da ministra engoliu a corda e acreditou nos elogios. Por conta disso, pensou estar acima do bem e do mal. Acuada pelos descalabros no uso dos cartões de crédito, querendo mostrar serviço, a lavoura da ministra partiu para o contra-ataque, parindo um dossiê de gastos suspeitos no período de Fernando Henrique. O raciocínio é simples como uma fábula de Esopo: ?Sim, nós roubamos, mas foram eles que nos ensinaram o caminho?. (*) É médico e professor da Ufal.