Opinião
Conselhos de m�e
| JOSÉ MEDEIROS * Corria o ano de 1968. Josué, amigo de minha família, recém-formado em Engenharia, transferiu-se para Salvador, onde fez carreira bem sucedida numa grande construtora, empresa que realizava trabalhos em nível nacional e internacional. Chamado ao gabinete do presidente, foi surpreendido com uma notícia que abalou sua estrutura: iria ser transferido para o Egito, país onde sua firma realizaria as obras de uma represa sobre o Rio Nilo. Salário em dobro, carta branca para decisões, entre outras vantagens. Representava o reconhecimento profissional; entretanto, por outro lado, significava o afastamento da família e amigos por vários anos. Você acredita em conselhos de mãe? Naturalmente, que sim. Nos momentos de grandes decisões, Josué sempre recordava dos conselhos de sua genitora e sempre se dava bem. O que diria ela nesse caso? Possivelmente: ?Cavalo selado nem sempre passa duas vezes em nossa porta?. Em casa, as opiniões divergiam: seus filhos se posicionaram contra. Sua esposa, corajosa, prática, decidida, foi sumária em sua opinião: aceite, eu me desdobrarei para cuidar dos garotos! Nós lhes temos ensinado que a arte maior, a arte definitiva, é saber viver. O trabalho no Egito não foi fácil: do planejamento ao início da execução da obra, dois anos se passaram. Além da dificuldade da língua, sua equipe esbarrava no desempenho dos operários, despreparados e pouco habilidosos. A saudade de Josué era grande; semanalmente, sua esposa, por meio de carta, contava todos os acontecimentos da família. E surpresas não faltaram: um dos filhos resolveu ser engenheiro, seguindo a profissão do pai; o mais novo, porém, resolveu dedicar-se ao sacerdócio. Obra concluída, vitória alcançada. Não anunciou sua volta à família; queria fazer uma surpresa. Momento da volta. Ao chegar, parou diante de sua casa. O que encontraria? Esquecendo a ética, olhou pelo buraco da fechadura. Empalideceu com o que viu. Sua esposa beijava um padre; raiva, revolta, seu sangue ferveu. Lembrou-se de um revólver que usava sempre na construção da represa e que estava em sua pasta. Abriu-a, violentamente, e resolveu: mataria os dois. Já com a arma na mão, lembrou-se de um outro conselho de sua mãe: ?Meu filho, olhe sempre duas vezes para poder acreditar?. Olhou, pela segunda vez, e, surpreendido, reconheceu que o padre de batina preta era seu filho que entrara no seminário. Guardou a arma, ajoelhou-se e agradeceu a Deus. O conselho de sua mãe salvara a vida de dois inocentes. (*) É médico.