Opinião
Dona Zefinha
| MARCOS DAVI MELO * Nas minhas aulas práticas tento mostrar aos meus alunos não só os avanços da oncologia, como também o mundo real do SUS; principalmente as facilidades e as dificuldades que os pacientes enfrentam desde o início de sua enfermidade até o diagnóstico e o tratamento. Pode-se apreender com os acertos e os erros, mas também se podem ter lições de vida. Esta semana entre os pacientes que estão em tratamento estava a dona Zefinha, natural de Piranhas, acometida por um câncer de reto. O câncer do reto é um dos que mais crescem no mundo, anualmente, são cerca de 1 milhão de casos novos; sendo o quarto motivo mais freqüente de morte por câncer e tem como principais causas os hábitos pessoais, como a alimentação gordurosa, o consumo excessivo de carne e doenças inflamatórias do intestino. Alguns pacientes têm uma forte carga genética. Ela os surpreendeu com a sua alegria e o seu otimismo naquele momento de infortúnio. Vítima de prisão de ventre crônica, há cerca de um ano atrás começou a apresentar sangramento pelo reto. Demorou até chegar ao diagnóstico e ser encaminhada para um tratamento especializado, que começara há 3 semanas. Ela já estava sentindo melhoras em seu quadro clínico: defecava sem esforço e sem dores, se alimentava e dormia bem e principalmente: estava instalada com muito conforto, atenção e solidariedade das voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer na Casa de Apoio Lenita Quintela Villela. Ainda deu dicas importantíssimas para os estudantes do que o paciente espera de seu médico. Estamos fazendo 20 anos de criação do SUS, sistema que desde o início nasceu com a pretensão de unificar e universalizar a assistência médica a todos os brasileiros. O SUS já nasceu com uma redução significativa de suas fontes de financiamento: a Previdência Social que gastava 20 a 25% da sua arrecadação com assistência médica, retirou-se totalmente da saúde; isto porque aumentou o número de aposentados e o que ela arrecadava mal dava para cobrir aposentadorias e pensões. Nestes 20 anos ocorreram avanços significativos: eliminaram-se quase todas as doenças que podem ser prevenidas com vacinação; reduziu-se a mortalidade infantil de 40 para 20 em cada mil nascidos vivos. Mas a dengue é epidêmica e letal. Nestes 20 anos o avanço tecnológico e científico foi enorme, isto tem um custo muito alto e é impressionante como se conseguem tantos bons resultados com a miséria que se paga aos médicos e hospitais. O que falta na saúde, sobra no desperdício de dinheiro público com as mordomias e corrupções as mais amplas e variadas. (*) É médico e professor da Uncisal.