Opinião
Trem fantasma: uma curva, um susto
| JORGE TOLEDO FLORENCIO * ?Usina é um trem fantasma: a cada curva, um susto!?. Frase feliz, de autoria desconhecida, reflete com inigualável competência, a vida dos que tornaram a usina como parte integrante, se não parte fundamental, de suas vidas. Há não mais que dois anos atrás, vivíamos em um ambiente de tranqüila certeza quanto a vitória da cana-de-açúcar como imbatível cultura, no cenário de necessário crescimento dos biocombustíveis. O Petróleo já atingira os US$ 70 por barril, o que nos tornava definitivamente competitivos. Qual a tarefa a realizar? Plantar cada vez mais cana e construir usinas de álcool para processá-las. Nesta tarefa se empenharam, e se empenham grupos empresariais das mais diversas origens nacionais, bem como capitais transnacionais, com gerência brasileira. Contudo as duas últimas safras, e de modo especial a última, roubaram o bom humor de quase todos os que se investiram nessa tarefa. Preços muito abaixo dos custos de produção, a apreciação do real contribuindo de modo indelével para o aviltamento das receitas empresariais, barreiras alfandegárias (e não alfandegárias) sabotando a internacionalização do etanol; um comportamento das autoridades federais, notadamente as ligadas aos direitos trabalhistas, operando em favor dos estrangeiros, em especial dos europeus, tornando fiscalizações, que deveriam ser rotineiras e sensatas, em espetáculos de demonstração de arrogância, em exposição à sede natural da opinião pública pelo escândalo, etc. A obtenção de uma licença ambiental tem dificultado até mesmo iniciativas de Estado, levando o Brasil ao papel de bobo da corte, pois há vinte anos tínhamos 10% das reservas florestais do mundo, e hoje temos 28% ? e não ficamos mais ricos por isso, muito ao contrário, temos perdido espaço na competição entre os que pretendem deixar de ser pobres. Será que estávamos tão enganados? O petróleo já passou dos US$ 100. Pode ser que estivéssemos enganados, mas com a experiência que a vida de ?usina? me deu, não vou seguir este rumo. Acredito que esta é mais uma crise, pois o consumo mundial de etanol tem crescido a assustadora taxa de 12% ao ano. O consumo mundial de açúcar cresce a um volume superior a três milhões de toneladas ao ano. Este cenário não me parece compatível com a tristeza e o cansaço que nos tomou de conta. Melhor acreditarmos que estamos no trem, numa curva, com um enorme susto ? passageiro. Continuamos a bordo da ?usina?. (*) É empresário.