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Dengue e as defici�ncias de preven��o

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| JOSÉ MEDEIROS * Na epidemia de dengue, no Rio de Janeiro, em 2002, houve 290 mil casos notificados. Seis anos depois houve mais de 80 mortes. Não se fez prevenção nesse período, para evitar essa calamidade? Cena que ocorreu, recentemente, no Rio: numa fila para atendimento de suspeitos de dengue, observa-se inquietação, medo e desespero. Crianças que choram, sem consolo. Adultos com febre alta, faces pálidas, sudorese abundante. Uma idosa cambaleia e é amparada pelos vizinhos. Os dois médicos, que fazem o atendimento, estão preocupados: mandam contar quantos doentes estão à espera de socorro; a resposta da auxiliar vem alguns minutos depois: 52 pessoas. Como medida paliativa, enquanto examinam e atendem, os médicos mandam distribuir comprimidos de paracetamol, para atenuar dores e febre. De repente, ouve-se reclamação no fim da fila: ?não tenho dengue, não, eu sofri um acidente e estou com uma fratura no pé. Devo tomar esse comprimido??. Retorno no tempo, a 1993. Já não vou tratar de dengue, que se alastra no Rio, e sim da epidemia de cólera que, nessa época fazia vítimas em Alagoas. Eu dirigia a Fundação Lamenha Filho, quando fui chamado ao Palácio, e o governador impôs: ?Medeiros, você assume, amanhã, a Secretaria de Saúde. A epidemia de cólera, que se agrava no Estado, já alcança 1.300 casos. A previsão do Ministério da Saúde é que esse número vai aumentar. Quero uma mobilização geral para conter a epidemia?. Assumi, no dia seguinte. Reuni setores federais, estaduais, municipais, entidades médicas, hospitalares e da sociedade civil organizada. Trabalho de prevenção de rua a rua, de casa em casa. Tendas e leitos foram improvisados para atendimento da doença em todo o Estado. Um lance curioso em meio a essa batalha: corria o boato de que peixe e sururu transmitiam cólera. Ninguém mais comprava esses alimentos. Pescadores entraram em polvorosa. O que fazer? Para provar que isso não era verdade foi programado almoço para 200 pessoas, num restaurante à beira da lagoa. As autoridades mais representativas estiveram presentes. Cardápio: peixe e sururu. A mídia realizou completa cobertura. A contra-ofensiva obteve bons resultados: o consumo voltou ao normal. Um jornalista, meu amigo, saiu-se com essa: ?Medeiros, confio em você, mas, por via das dúvidas, não comi peixe e sururu. Afinal, se vocês todos adoecerem, quem vai noticiar o fato?? Vencida a crise epidêmica, ampliou-se permanente vigilância, não mais ocorrendo epidemia de cólera. (*) É médico e ex-Secretário de Saúde e de Educação.

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