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Opinião

Do outro lado

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| MARCOS DAVI MELO * O elogio quando imerecido pode ser apenas uma forma de puxar o saco e se obter alguma vantagem; pode ser alimento para o ego doentio dos muito vaidosos; mas quando justificado e não proferido, configura-se a prática de fragrante injustiça. Por isso, homens como Machado de Assis afirmavam: ?Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado?. Vou relatar experiência que tive nestes últimos dias para meus poucos e generosos leitores. Meu pai é um homem de 89 anos equilibradamente vividos e ainda com uma qualidade de vida muito boa para a sua idade; isto, provavelmente porque nunca bebeu nem fumou. Muito lúcido, com memória privilegiadíssima, pratica caminhada diariamente na praia ao alvorecer, alimenta-se bem e ultimamente estava freqüentando com muito gosto a hidroginástica. Todavia, o tempo não perdoa e ultimamente vinha tendo dolorosas crises de angina que ? embora submetidas a vários esquemas medicamentosos ? se repetiam cruelmente, mesmo em seu repouso noturno. Restava-lhe a intervenção ou a condenação à morte. Há alguns anos, para um paciente com esta idade, nenhum médico equilibrado se arriscaria a fazer cateterismo, muito menos angioplastia e jamais uma cirurgia de ponte de safena. Pois, na semana passada, premidos pelo quadro clínico crítico, os colegas realizaram não só o cateterismo, como e em suas coronárias foram colocadas dois estentes. Da sala de hemodinâmica fomos para a UTI coronariana, onde passou alguns dias; de onde teve alta para ir para casa, absolutamente livre das dores cruciais que lhe tomavam todo o peito. Ainda teve como brinde extra na sua alta, gostoso beijo dado em sua testa pelo Milton Hênio, este donatário das terras férteis das gentilezas e das cortesias humanas. Mesmo com mais de trinta anos de prática da Medicina, estar do outro lado é sempre uma experiência muito diferente; ficamos totalmente à mercê não só do médico, como de toda a equipe que o auxilia e isto é importante para nos dar um pouco mais de humildade no trato com os nossos próprios pacientes. Aos colegas Cid Célio e Gilvan Dourado fica a gratidão e o respeito de mais um, que entre tantos outros, teve a vida de um ente querido salva pelas suas perícias e experiências. Aos colegas da UTI coronariana e todos os demais que ali trabalham, que continuem a laborar com a dedicação e o denodo que os caracterizam, para que muitas vidas preciosas continuem sendo salvas. (*) É médico e professor da Uncisal.

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