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Opinião

De todas as solid�es

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| AYDETE VIANNA * A conversa animada fluía ao sabor do vinho, cuidadosamente escolhido pela mais entendida do grupo. O garçom parecia se divertir com o entusiasmo da discussão. Afinal, de que falavam tanto aquelas mulheres? A solidão era o mote. Cada uma das seis comensais tinha o que dizer e o fazia tão compenetradamente quanto um mestre na defesa de sua tese. ?Conheço a solidão de quem perde o emprego, quando se tem quase cinqüenta anos de idade. O mundo fica escuro ao derredor e a até o vento estanca seu sopro. As chances passam voando?, declara uma delas, a poetisa. Minha gente eu vim de longe, estou aqui cansado e só ? lembrei-me da canção. Enquanto saboreava meu rondelle cheio de colesterol, mastigava, também, os conceitos desse sentimento, sinônimo de total desamparo, que pode durar um átimo ou o tempo de uma vida. Aquela aflição que espreme a alma diante do inevitável enfrentamento de certa situação desesperadora, contando unicamente com sua força ou com seu medo. Acho que todo mundo vem de longe e já chega exausto de vidas e vidas passadas. Chega naturalmente sozinho. Existe ato mais solitário do que nascer? O choque da claridade intensa e a dor de se individuar com a respiração inaugural conformam, decididamente, a primeira e mais tocante solidão do ser humano. O ambiente refrigerado disfarçava o calor de Maceió. O vinho caía bem no moderado e elegante culto a Dioniso. Alguém disse que deve ser muito despovoado e seco por dentro aquele ou aquela que fala mal de outrem, que sente espasmos prazerosos ao denegrir, ao espancar moralmente. Então, todas passaram a falar ao mesmo tempo: tenho nojo; dá vontade de pisar os maledicentes; existe muita gente assim; devem sofrer de insuficiências sexuais ? levantaram-se vozes indignadas. Alguém trouxe um sorriso que consola ? acode-me o poeta, de novo. É isso, refleti. É o sorriso que salva a humanidade. Rindo, sorrindo ou gargalhando cada um se transforma, dia-a-dia, em seu próprio companheiro, para o que der e vier. De outra forma, morrer-se-ia de vez logo no início da vida escolar, quando as crianças exercitam a crueldade inocente. Não se chegaria a experimentar a doçura e o amargor das relações entre indivíduos nos grupamentos humanos. A tarde passou fagueira. Hora do até logo, a mais jovem arriscou: ?Será que mensaleiro tem solidão?? Riso geral. Atravessei a rua de mãos dadas com Paulo Diniz, trazendo muito amor dentro do peito e muita coisa pra contar. (*) É advogada e jornalista.

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