Opinião
As asas dos mitos
| RONALD MENDONÇA * Considerado um dos sujeitos mais engenhosos da sua época, prisioneiro de um rei enfurecido, Dédalo ? e seu filho Ícaro ? obcecado pelo desejo de libertar-se, bolou audacioso plano de fuga que burlaria o sistema de vigilância da prisão. Com a ajuda do filho, construiria asas e as prenderia ao corpo aplicando cera de abelha. O desfecho é conhecido. Empolgado pela inesperada habilidade de voar, o jovem e inexperiente Ícaro, não obstante às recomendações paternas, incauto, atraído pelo brilho, voou cada vez mais alto em direção ao sol. A aventura cobrou um preço alto. Para desespero do pai, o herói alado teve a cera derretida pelo calor, despencando desgovernado, pagando a impetuosidade com a própria vida. Da mitologia para a dura realidade, há poucos dias o sonho de voar de Dédalo e Ícaro renovou-se na mente pueril de um religioso católico. De fato, padre Aldeir de Carli, irresponsável até onde a lei faculta, meteu os pés pelas mãos e partiu para uma louca aventura. À guisa de asas, dependurado por prosaicas bexigas de festa, ao sabor de ventos e tempestades. Não fora a tragédia, seria cômico imaginar um sujeito baixote e meio gordinho a seis mil metros de altura, literalmente ao léu, confessando-se tranqüilo e confiante, a pedir orientações para ler dados fornecidos pelo GPS, nas circunstâncias, instrumento primordial para sua localização. Ou seja, o Ícaro ocasional não passava de um tremendo trapalhão. Àquela altura, tudo leva a crer que, sem telefone celular e sem GPS para orientar, até Deus teve dificuldade em salvá-lo. Noutro espaço, sem as asas da glória que o consagraram tirando o sossego de beques e goleiros mundo afora, Ronaldo, o Fenômeno, voltou com estardalhaço ao noticiário. Em vez de estádios lotados, desta vez, o cenário seria um quarto de motel e o buraco era mais embaixo. Acompanhado por travestis, além de tudo acusado de ?xexeiro?, o Fenômeno jura de pés juntos ter comido gato por lebre. Ar de bom moço, hoje, gordo e deprimido, em franco declínio profissional, não esquecer que graças a estupendo talento, Ronaldão fez fortuna e esculpiu sua imagem furando redes, ao mesmo tempo em que arrastava asas para mentes e corações femininos. Tudo junto ajudou a construir o mito. O ser humano é mesmo muito complicado. Valetudinário, agora enrascado com essa história de heterodoxo envolvimento com travestis e drogas, a gente fica a se perguntar: são de cera as asas dos mitos? (*) É médico e professor da Ufal.