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Opinião

As neuroses gerais

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| MARCOS DAVI MELO * Júlio Cortazar tem um conto excepcional, que li há muitos anos e é um primoroso produto não só da sua mente fértil, como daquele boom da literatura fantástica latino-americana da qual era um dos seus mais expressivos representantes: um cidadão dirigia o seu automóvel por uma estrada no interior da França e de repente enfrentava um engarrafamento brutal; depois de longo tempo parado e sem informações, ele desce do carro e o tempo passa, passa e o conto termina sem que o engarrafamento se desfaça. Talvez pela lembrança que me ficou deste conto, confesso que já gostei muito mais de São Paulo do que atualmente. Mesmo tendo um filho fazendo residência médica aqui e sentindo sempre muita saudade dele, hoje só venho para a realização de eventos científicos da oncologia. Já na chegada, o desvario se apresenta logo no trajeto do aeroporto de Guarulhos para o hotel no Itaim Bibi. Mesmo sendo em um horário no qual se presumia estivesse o trânsito melhor (depois das 20h), os monumentais engarrafamentos fizeram com que levássemos quase duas horas para chegarmos ao hotel. Na Jornada Paulista de Radiologia, evento médico gigantesco que venho anualmente e no qual a cada ano os colegas mais reclamam deste aspecto paulista, este ano estive em uma mesa redonda com um americano, dr. Avraham Eisbruch, de Michigan, EUA e não só ele, como a maioria dos outros convidados estrangeiros reclamaram muito do estressante trânsito paulistano. Por falar em neuras, além do caso horripilante da menina Isabella que ainda comove os paulistanos; agora irrompe este outro caso na Áustria: o pai Josef Fritzl, enjaulou a filha por 24 nos e com ela teve 7 filhos. Na pátria de Freud, o gigante que despertou a sexualidade adormecida e o inconsciente, que afirmou que os filhos sempre querem transar com as mães e as filhas com os pais; parece incompreensível que um pai, com a ignorância ou cumplicidade da esposa, tenha tido com a filha o desenvolvimento de ?fantasias escondidas e perversas? que o próprio Freud nos avisou existirem. Em uma sociedade tão desenvolvida quanto fria, ocorreu relacionamento primitivo, da era das cavernas, quando as filhas eram propriedade dos pais e deles procriavam; hábito que só desapareceu com o advento da cultura, dos tabus e da prova que o incesto gerava filhos com taras congênitas. Um caso que deixa muitas perguntas, entre elas: quem está doente, somente o homem, sua mulher e a sociedade fria e distante que certamente suspeitava de algo e permitiu tamanha aberração? (*) É médico e professor da Uncisal.

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