Opinião
O conto do Paco
| PEDRO CABRAL * Descalço é o caminho a ligar os dois lugares: Ilha de Santa Rita e Coqueiro Seco. Ele serpenteia por entre uma encosta e as águas de um canal da Lagoa Mundaú. Aqui e acolá, no caminho, se percebe o balanço preguiçoso das águas sob as sombras dos manguezais. Bucólico caminho que acolhe na encosta coberta de árvores e coqueirais a igrejinha dos Remédios. E mais adiante, sobre um pontilhão, ele dialoga com populares que transformam a clareira com riacho num clube social dominical. O caminho segue seu curso e se chega num arruado que antecede a cidade de Coqueiro Seco. Chama-se Cadoz. Neste lugar deu-se uma triste história de amor. E tudo começou no bar do Renaldo. Paco apaixonou-se perdidamente por Preta. Nomes de novela, mas verdadeiros. Preta, porém, nunca o quis. Rejeitava todas as investidas de Paco. Certo dia, Paco pegou Preta entretida, da forma mais sensual, com outro e se sentiu o mais tristonho dos mortais. Nesse dia, tocava no bar um DVD da Tracy Chapman. A música que tocava era Sorry. Sim, aquela que diz: ?Sorry/ Is all that you can?t say/ Years gone by and still/ Words don't? Come easily/ Like sorry like sorry?. Paco chorou. Suportou calado todo aquele desamor. O tempo passa e Preta engravida do outro, que a abandona. Mesmo grávida, Paco a cortejava. Quando nasceram os filhos, sabe o que Preta fez? Abandonou-os e partiu em busca do seu amado. Desapareceu do lugar. Restou a Paco cuidar dos filhotinhos. E o fez como se fossem seu. Virou uma espécie de pai e mãe. E todos que chegam ao bar do Renaldo terminam sabendo sua história. Paco está sempre lá. Ora, numa mesa, ora noutra a saudar aqueles que querem provar o filé de siri mais gostoso que se tem notícia nesse complexo lagunar. Quando Paco se afasta da mesa, os comentários maldosos caem sobre o coitado. Paco percebe e se recolhe a um canto. Dir-se-ia ser maldade, mas pode-se tomar como um sentimento de amizade, quando Lane, a simpática e aguerrida dona do bar, diante do perceptível sofrimento de Paco, resolve atiçar mais sua sentimentalidade e coloca o DVD de Tracy Chapman. E quando toca Sorry, Paco berra de dor. E todos, em suas mesas, se voltam para ele, que chora, sem vergonha, o amor perdido. Toda essa história seria uma história banal, se Paco fosse um homem. Não, não, Paco não é um homem. Ele é apenas um cão, desses que o povo costuma chamar de guenzo. Sabe, Paco aprendeu. Nenhum cão ousa se aproximar daquele bar. Paco não deixa mais. (*) É arquiteto e professor da Ufal.