Opinião
Breve percurso sobre os anos 60 no Brasil
| ALEXANDRE J. NOBRE * Em virtude das transformações econômicas, tecnológicas e ideológicas do século 20, a sociedade brasileira da década de 1960 se encontrava em um estágio de transição, em que se inserem aspectos de uma sociedade globalizada, urbanizada ? em conseqüência do progresso industrial ?, com a inclusão da mulher no âmbito social. Com a adoção desses novos valores, ideais antigos, como o da moralidade da estrutura familiar, foram cedendo espaço às vertentes individualistas e puramente consumistas propagadas pelo sistema capitalista. Nessa sociedade, a censura agia como um dispositivo para conservar o poder instituído e os ?bons costumes?. É nesse período que se encontra a grande efervescência artístico-cultural brasileira, onde se configura o campo da MPB, com nomes como o de Geraldo Vandré, Nara Leão, Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros, agindo como principais expoentes da música. Entre as várias maneiras de produção cultural está o teatro, que, em meio aos diversos fatores socioeconômicos, para ter uma produção economicamente viável, adota gêneros mais adequados para a realização de seu objetivo primeiro: o dramático e a comédia. Por meio do teatro e da música os artistas representam, entre várias outras temáticas, as mazelas sociais. O Estado, no entanto, sob o argumento de que tais representações deturpavam, por vezes, a moralidade social e punham em jogo o poder por eles estabelecido, boicotava, através dos agentes da Polícia Federal, todo tipo de produção artística, cultural e informativa antes de torná-la pública. É em 1926 que ocorre a criação do serviço de censura prévia no Teatro do Estado de São Paulo. Porém, em 1968, esse órgão é dissolvido e transformado em um órgão federal e mais repressor. Na peça Opinião, de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, é notável a presença da censura, sobretudo, nos versos de Zé Kéti: ?Leio todos os jornais da manhã e da tarde/Para estar a par das novidades./Foi o jornal que disse/Que morrem 500 crianças por dia/Eu digo o que leio, não o que vejo/Porque o que vejo não posso dizer?. Nesses versos, torna-se patente a veracidade da censura urbana, social e discursiva do período. Nessa configuração urbana, dependente do sistema capitalista, a única estratégia, talvez, encontrada pelo governo para mediar os abalos do progresso industrial e social foi, infelizmente, a censura das artes que faziam vir a lume a realidade social. (*) Escreve crônicas, poemas, prosas poéticas e é estudante de Letras na Universidade Federal de Alagoas ([email protected]).