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Opinião

Esperan�a e temor

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| JORGE BRISENO * Um dos maiores desafios que o setor de saneamento enfrenta é o de buscar financiamentos para ampliar a oferta de água tratada e aumentar a cobertura da rede coletora de esgotos. A situação é a seguinte: 17% dos abrigos brasileiros não possuem água canalizada e 51% dos nossos refúgios não estão interligados à rede coletora de esgoto. O gentil leitor estranhará que eu utilize as doces palavras abrigo e refúgio ? como vemos, a nossa língua é riquíssima e dotada de uma musicalidade e sonoridade impressionantes ? em substituição à casa ou residência. Porém, e o amigo leitor concordará, nesta época tempestuosa que atravessamos nas Alagoas, as palavras abrigo e refúgio caem melhor no texto. No entanto, isso não importa. Deixemos essas divagações lingüísticas ao largo e retornemos ao tema central. Perto de 23% da população urbana brasileira não possui sequer uma fossa séptica, que vem a ser a mais rudimentar tecnologia de coletar e tratar esgoto, conhecida desde a época do Império Romano. Isso, horripile-se caro leitor, nos centros urbanos. Nas áreas rurais a situação é ainda mais precária. O estupor aumentará mais ainda quando o amigo souber que 80% do volume total de esgoto gerado no Brasil não possue qualquer tipo de tratamento. Para que todos os brasileiros tenham acesso à água tratada e seus esgotos sejam coletados e tratados, necessitaríamos de uma inversão da ordem de R$ 11 bilhões anuais até o ano de 2025. Infelizmente, nos últimos 8 anos, o investimento ficou em torno de R$ 3 bilhões/ano. Se continuarmos nessa ridícula marcha, apenas em 2034 conseguiremos que todos os brasileiros tenham acesso aos serviços de água tratada e, apenas no longínquo ano de 2054 ? um infortúnio não estarmos vivos para celebrarmos tão auspicioso acontecimento ?, todos os brasileiros, evidentemente que vivos àquele ano, terão seus esgotos coletados e tratados de alguma forma, seja por estações de tratamento ou fossas sépticas. Observo o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) com um misto de esperança e temor. Esperança de que os prometidos R$ 40 bilhões na área de saneamento, entre os anos de 2007 a 2010, sejam efetivamente realizados ? para quem vivia em regime de inanição, quase morto de fome, é algo parecido a se defrontar, todo santo dia, com um prato de buchada ? e temor de que seja apenas mais um programa efêmero, fugaz, que observamos tediosamente o governo lançar, vendo-o depois sumir, desaparecer nas brumas do tempo e da memória. (*) É diretor de Operação da Casal.

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