Opinião
A irresist�vel for�a da natureza
| RONALD MENDONÇA * Esopo nos conta que cansado da vida nas montanhas, o escorpião buscou a planície. Vagando ali e acolá deu de cara com um caudaloso rio. Querendo atravessá-lo, o problema era como conseguir chegar ao outro lado, dada sua notória inabilidade no nado. Enquanto matutava, vislumbrou uma rãzinha que distraída esquentava o couro há poucos metros dali. Usando o tom de voz mais macio, puxou conversa relatando as suas agruras dos tempos em que passava dificuldades nas inóspitas montanhas e seu esforço hercúleo de rastejar até ali. Admitiu irrefreável paixão pelas terras que margeavam o outro lado, confessando de antemão sua gratidão pelo impagável favor, caso o cismado batráquio se dispusesse a levá-lo no seu dorso. Não obstante o histórico pouco recomendável do lacrau, a boa rã optou por concordar em fazer o traslado. As argumentações finais pareceram-lhe insofismáveis: o cara tinha lá suas maldades, mas não seria canalha suficiente para matar a quem lhe estava prestando um favor; além de tudo, não havia o menor interesse em picá-la, até porque se o fizesse, ambos morreriam. A placidez do artrópode montado nas costas da nadadora terminariam por derrubar os últimos resquícios de desconfiança. No meio do rio, onde a correnteza era mais forte, a nobre rãzinha sentiu nas carnes a traiçoeira ferroada. Num derradeiro instante, questionado sobre a insensatez do gesto, o escorpião explicou-se: ?Não tive como resistir, é da minha natureza?. A encenação da tragédia de Esopo está mais atual que nunca. O palco é o auditório do Congresso Nacional. Os escorpiões são a depoente, ministra Dilma Rousseff e seus argüidores, os dignos representantes do povo, este, no caso, a crédula rã. Num dado momento, um nobre senador, depois de ler entrevista pretérita da ministra em que ela discorria sobre suas mentiras na condição de prisioneira da ditadura militar, candidamente pediu sinceridade naquele depoimento. O que se viu a seguir foi um show de encenação patética, feita de encomenda para tentar demover a desconfiança de milhões de rãs espalhadas País afora. A comoção não é à toa. A tortura é em qualquer circunstância abominável. Lembrar que a ministra aos 19 anos fazia parte de um grupo armado disposto a tudo é dispensável. Assim com é redundante reafirmar que sua luta era para implantar ditadura que tratava os adversários com igual brutalidade. Quanto a mentir, é da natureza do ofício. Ninguém resiste. (*) É médico e professor da Ufal.