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Duas m�es, dois filhos

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| JOSÉ MAURÍCIO BRÊDA * Tive duas mães. Enquanto uma me gestava, a outra me esperava. Uma curtia a maternidade, a outra era só ansiedade. Sim, porque já fora babá de minha irmã mais velha e tinha, mesmo sem nunca haver gerado, o sentimento maternal. E assim foi. Nasci de uma, amparado pela outra. Enquanto uma me amamentava, a outra me esperava para, em seu largo colo, acalentar-me. E as duas se completaram pela minha vida afora. Que sincronia. Uma alfabetizada, a outra, semi, entendia suas limitações. Se uma me restringia algo a outra sabia a hora de me proporcionar sem feri-la e sem deseducar-me. Quando uma me chamava para estar à mesa para o almoço com a família, comparecia, porém já estava alimentado pela outra, no chão da cozinha, com bolinho de feijão, farinha e charque. Num mundo de conforto com uma, gostava do aconchego dos mais simples lugares com a outra. Com uma transitava de carro pela cidade, com outra experimentei o ônibus e o bonde. E como era bom sair a passear naquele saudoso transporte coletivo pela Maceió da época. Subir a ladeira do Brito ziguezagueando, passar pelas frondosas árvores do Parque Gonçalves Lêdo até atingir a Av. D. Antonio Brandão em direção a Av. Tomás Espíndola. Conheci com uma, ainda infante, a alta sociedade para com outra conhecer a Chã de Bebedouro, casas construídas de taipa, pessoas simples e como ela dizia: o meu povo. Com eles, convivi em vários fins de semana que, hoje vejo, deixaram marcas indeléveis na minha formação. Nesta simbiose, minhas duas mães foram cúmplices no amor que a mim dedicaram. E já que uma, Dulce, tinha seu nome gravado na minha certidão de nascimento, homenageando-a pelo resto de minha vida, emprestei o nome da outra, Nina, a um edifício, como uma certidão de reconhecimento. Ter duas mães e perdê-las na cronologia normal da vida, saindo de nós uma parte, traz-nos um imenso sofrimento, mas ter dois filhos e perdê-los durante a existência, é mais que perder uma parte, é perder a nós mesmos. Com este sentimento, dedico todo amor deste dia a minha tia Eurides, que passou pela mesma provação de Maria, quando se foram os seus, Denis e Daisy. Que seus netos e bisnetos continuem preenchendo este e todos os dias de sua já nonagenária existência. (*) É bacharel em Economia.

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