Opinião
Os negros e a Igreja
| DOM FERNANDO IÓRIO * A História do Brasil convida a todos nós para uma reflexão, cada vez mais necessária, sobre a presença do povo negro no Brasil. Escrever sobre os afro-brasileiros presentes na Igreja implica em fazer a recordação da história dos negros no Brasil. A sociedade de orientação econômica escravagista construiu uma sólida justificativa para tal opção. As justificativas da escravidão de origem filosófica, biológica e até mesmo teológica, geraram uma orientação preconceituosa em relação à cultura dos povos oriundos da África. Teve a Igreja dificuldades de apontar um outro caminho. O projeto colonial embasado na economia escravagista foi hegemônico e não teria durado três séculos se houvesse uma resistência mais consistente. A Igreja, de certa maneira, não o questionou de forma incisiva, como era de se esperar. Talvez seja esse um dos motivos porque ainda hoje haja poucas vocações oriundas da cultura afro-brasileira na Igreja. Há uma causa histórica para essa dificuldade. É que não há como negar certo estranhamento entre os afro-brasileiros e a Igreja, ainda mesmo que tenham sido os negros os primeiros batizados do continente latino-americano e do Brasil. Entretanto, temos, no passado e hoje, muitas iniciativas de apoio, de reconhecimento e de solidariedade à caminhada dos negros. Tais iniciativas estão em sintonia com o compromisso do missionário São Pedro Claver, o santo que se fez negro no meio dos negros. O próprio Zumbi dos Palmares foi acolhido por um padre que o educou até a juventude. Os franciscanos do Rio de Janeiro acolhiam escravos idosos impossibilitados de trabalhar: ao menos tinham uma morte digna e em paz. Vê-se, de tal maneira, que a Igreja procurou arrefecer o impacto do projeto escravagista sobre os negros. As iniciativas eclesiásticas de apoio aos negros não deixaram de ser constantes. Em 1979, a Conferência de Puebla sugeria à Igreja o compromisso para com os negros, vez que ali se encontrava o rosto de Cristo sofredor. A Conferência de Santo Domingo (1992) fez numerosas referências aos afro-descendentes, reafirmando o compromisso eclesial. O documento de João Paulo II ?Ecclesia in América? reforça o compromisso sugerindo a formação de agentes de pastoral entre os negros. Foi o que vimos, neste último mês de abril, agentes de pastoral afro-brasileira presentes na 46ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.