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Bons momentos .

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Como oncologista no ofício há quase 5 décadas, ainda me emociono com ocorrências do cotidiano que deveriam passar-me despercebidas. Nesta semana, uma paciente alegremente abordou-me no hospital pedindo para tirarmos uma fotografia juntos. A memória traiu-me, mas em seguida ele explicou-me que tinha sido nossa paciente há 12 anos e agora estava se tratando para um segundo tumor com meu filho Marcel, que exerce a mesma especialidade.

Outros bons momentos: as reuniões dos economistas Pérsio Arida, Gustavo Franco, Edmar Bacha e Pedro Malan para celebrar os 30 anos do “Plano Real” (o PT foi contra), que retirou o Brasil de um período de hiperinflação, que a todos espoliava, em especial os mais pobres. As remarcações diárias das mercadorias com aquelas maquininhas infernais eram um terror. Faltavam produtos básicos. O “overnight” livrava apenas os que tinham grana. Eram 46,7% ao mês de inflação – hoje, estamos em torno de 4% ao ano.

Em São Paulo, a reunião do atual presidente Lula com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, artífice do Plano Real, ex-ferrenhos adversários políticos, mas hoje capazes de conviver civilizadamente. FHC, um depurado sociólogo e intelectual com renome internacional e, na posse de Lula, ao passar-lhe a faixa, declarou que era “importante para a consolidação da democracia brasileira que ele fosse substituído por um político oriundo do movimento operário”.

As vacinas faziam parte da rotina das pessoas, protegiam as crianças das doenças transmissíveis, e assim chegamos a ser uma referência internacional ímpar em Saúde Pública. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o centenário periódico Lancet eram inquestionáveis parâmetros das condutas na saúde mundial, e não “um ninho de comunistas”. Tempos nos quais as entidades médicas se envolviam mais com a saúde do que com a política partidária. Na política, o pior que acontecia eram os “Anões do Orçamento”, hoje um episódio diminuto diante dos brucutus e das truculências e ofensas que assolam o Congresso. Os evangélicos tinham pequeno e respeitoso assento e seguiam mais a Bíblia do que as maquinações das redes sociais.

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O ditado segundo o qual “os bons momentos não voltam” é relativo. No Congresso, basta focar nas pautas econômicas e encarar a hidra de Lerna dos costumes, observando-se o que acontece em outros países. Os médicos precisam reentender que a prevenção das doenças (através das vacinas!) é a forma mais ética e sagrada de seu ofício. Na oncologia, tivemos muitos avanços, mas a prevenção e o diagnóstico precoce serão sempre ferramentas essenciais.

No Brasil, apesar dos solavancos, temos paz nos quartéis, a nossa maior reconquista. Nós podemos ter uma convivência acirrada mas civilizada na disputa política. Nós conseguimos implantar o Plano Real e domesticar uma hiperinflação crônica. Ademais, temos crescimento e emprego, e assim podemos superar outros grandes desafios. Mas o Lula 3.0 precisa controlar a matraca, parar de agitar o mercado, turbinar a elevação do dólar e ainda despertar a besta-fera da inflação. Para recuperar os bons momentos, faz-se necessário moderação, equilíbrio e pragmatismo.

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