Opinião
Perversidades e compaix�es
| MARCOS DAVI MELO * No despacho judicial que determinava a prisão dos suspeitos do bárbaro crime da menina Isabella em São Paulo, o desembargador alega a total falta de compaixão para determinar a prisão do pai e da madrasta da criança. O desembargador julga que os suspeitos do crime foram muito perversos, sem compaixão. Joseph Conrad na obra Sob os Olhos Ocidentais, afirma que: ?A crença numa fonte sobrenatural do mal não é necessária: os homens, por si sós, são capazes de qualquer perversidade?. Em uma região muito distante da Paulicéia, caracterizada recentemente por intenso rebuliço na sua Assembléia Legislativa, um político de expressão nacional, que atravessou intenso desgaste público, com perda de expressivo cargo legislativo é impiedosamente maltratado pelos supostos problemas que o seu filho tenha tido, decorrentes do uso de drogas. Tenta-se assim, inculcar ao pai, a culpa pelos descaminhos que o filho possa ter tomado. Como se o sujeito fosse tão ruim que merecesse ter um filho drogado e problemático. Ninguém merece isto. Conheço muitas famílias cujo pai é e foi durante toda a vida um homem de bem, trabalhador e cumpridor dos seus deveres e tem entre os seus filhos, alguns que seguiram o seu bom exemplo e um ou mais que só fazem dar trabalho e desgosto: as ovelhas negras. Tiveram a mesma criação, conviveram no mesmo teto e, no entanto, encaram a vida de forma diametralmente oposta. Parecem seres de outro planeta. Como explicar? Há muito tempo atrás um italiano, Cesare Lombroso, causou polêmica internacional com a sua teoria: determinadas pessoas já nasciam vocacionadas para o mal. Chegou inclusive a desenhar o seu perfil anatômico ? o lombrosiano: cabeça angulosa; queixo proeminente; braços grandes; um aspecto rude. A ciência desfez esta teoria. É inquestionável, todavia, que uma educação frouxa, genitores omissos ou ausentes, entre outras faltas, pode ser a causa primordial dos distúrbios que os filhos apresentem no convívio social ou na inadaptação às regras e exigências da sociedade atual; que não alivia: exige permanente eficiência, cobra resultados continuamente e para tal passa por cima de valores humanos, tais como a solidariedade e principalmente a compaixão. Balzac afirmava que dificilmente o homem suportava a compaixão, sobretudo quando a merecia; afirmava que o ódio era um sentimento tônico, fazia viver, inspirava vingança, mas a compaixão, matava, enfraquecia ainda mais a fraqueza humana. Extremamente atual. (*) É médico e professor da Uncisal.