Opinião
Derradeiro v�o
RONALD MENDONÇA * Revia o tape do maldito lance pela milionésima vez. Sozinho, na ampla sala do apartamento, via o seu duro rosto desconsolado, quase uma careta - aparecer em close no monitor de TV. Assim, em imagem digital, até o detalhe das furtivas lágrimas, que ninguém havia percebido, estava conseguindo identificar. Foi a partir dali que tivera a certeza da derrota iminente. Há uma semana a competição havia terminado e desde então não dormira nem duas horas . Enfiado no uísque, trancara-se naquele distante hotel longe de todos com nome falso e tudo o mais. Queria mais era ficar só, com os seus pensamentos, as suas amargas recordações. A dor era sua e intransferível. Crescera sob o tacão de uma avó linha-dura. Magro, frágil, era dado a ataques de asma. Era apenas nessas horas que a velha perdia a aspereza, se desdobrando em desvelos, preparando chás, fazendo-o respirar os vapores de água fervente. A morte por afogamento do irmão mais novo, único, enquanto nadavam num riacho próximo da casa, tinha-lhe deixado dolorosas marcas. Em vão tentara salvá-lo. Depois, sem nunca mais ter voltado a chorar, teve de conviver com o martírio do olhar acusatório da avó a persegui-lo aonde quer que fosse. Ser goleiro foi circunstancial. Incapaz de relacionar-se com os colegas da escola, sobrava-lhe apenas a desagradável função. Por pura pirraça, por detestar a todos, sentindo um enorme prazer, fazia o máximo para que ninguém fizesse gol em sua baliza improvisada. Depois de algum tempo sua escalação era disputada no tapa. Adolescente e sem um pingo de saudade, mudou-se para uma cidade maior, sobrevivendo com um quase trabalho-escravo na cozinha de um bar mal-afamado. Nessa altura, já o mais alto do colégio, continuou goleiro barrando o filho da diretora, até então com cadeira cativa na posição. Depois de escapar de um princípio de alcoolismo e de se profissionalizar, a ascensão para o selecionado do País deu-se naturalmente. Disciplina, tradição e o perfeccionismo dos excelentes predecessores nele encaixaram-se como uma luva. Na verdade, sua maior força advinha do profundo ódio pelos arti-lheiros do mundo inteiro. De repente, o medonho olhar de reprovação da velha avó saltou para o canto do televisor, justamente nos exatos instantes em que, quadro a quadro (cruciante slow motion!), depois de bater roupa numa bola fácil, inutilmente tentara, sobre humilhantes quatro pés - ?catando grama?, impedir o toque inclemente do goleador. Encurralado no cipoal dos seus tormentos e tomado por irrefreável choro, lançou-se janela afora. A quilômetros de distância ouviu-se o dilacerante grito: ?Perdoa-me vovó?. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL