Opinião
As pontes da disc�rdia
| LINDEMBERG DE ARAÚJO * O Estado de Alagoas tem uma das mais belas paisagens do litoral nordestino, o que tem sido usado como justificativa para o incentivo ao desenvolvimento do turismo. Fora o coqueiral e os remanescentes de Mata Atlântica, a água é seguramente um dos principais elementos que embelezam nosso litoral. Vários tipos de construções têm ameaçado esse patrimônio paisagístico. São hotéis, bares, restaurantes, estradas, condomínios, loteamentos e pontes, que vêm causando impactos ambientais inaceitáveis. Aos poucos, alguns trechos do litoral estão se tornando alguns dos ambientes mais degradados do Estado. Um exemplo clássico de tais impactos é a ponte Divaldo Suruagy. Para a sua construção, foi aterrada uma parte significativa em ambas as margens do canal, para a construção das cabeceiras da ponte. O mesmo tipo de procedimento foi adotado na construção das pontes da Massagüeira e do Roteiro, causando graves impactos ambientais no complexo lagunar. Agora, querem construir uma ponte sobre o Rio Manguaba, em Porto de Pedras, sem a realização de todos os estudos recomendados. Até as pedras sabem que os canais desempenham papel essencial para a manutenção das condições ecológicas das nossas lagoas costeiras e dos estuários. O seu aterramento, mesmo parcial, pode causar alterações significativas na dinâmica das águas das marés, o que leva a uma redução na produtividade natural desses ambientes, incluindo a redução na oferta do pescado, dentre os quais peixes, camarão e sururu. Além disso, nos períodos de chuvas intensas as partes aterradas funcionam como barreiras ao fluxo natural das águas, agravando as conseqüências destrutivas das cheias. A redução no aporte de água do mar a certos ambientes, muda radicalmente as condições ecológicas. Quem perde com semelhantes agressões ambientais? Perdem os catadores de caranguejos que podem não ter do que viver no futuro. Perdem os pescadores a médio e longo prazo, que podem ter os estoques de pesca ainda mais comprometidos. Perdemos todos nós, que vemos um grande potencial de desenvolvimento ser gradual e continuamente dilapidado, freqüentemente com a aprovação de órgãos que têm a obrigação institucional de proteger. Portanto, a decisão do Ministério Público Federal de caçar a licença ambiental para a construção da ponte sobre o rio Manguaba, em Porto de Pedras, merece os aplausos daqueles que se preocupam com o desenvolvimento sustentável em Alagoas. (*) É professor da Ufal e Ph.D. em planejamento turístico.