Opinião
Com a cor do passado
| CLÁUDIO VIEIRA * O jurista italiano Bettiol, no prefácio à segunda edição do seu Il Problema Penale, apregoa, com a inspiração de bardo, que ?O direito também é poesia, também é harmonia, e, portanto, arte?. É essa, talvez, a constatação do fato de termos todos, os operadores do Direito, algum pendor para as letras, como sobejamente comprovado na produção literária. A desembargadora Elizabeth Carvalho do Nascimento é destacado exemplo de magistrada, distribuindo a Justiça, como é seu mister, não apenas com a clara mente jurídica, mas, e também, com a sensibilidade de poetisa, aquele ser que vive o drama humano e o eterniza em versos. Não é do juiz a compreensão das tensões que tumultuam a alma humana, transformando-as em silogismos perfeitos, com o fito de dar a cada um o que é seu direito? Eis, então, que dessa comunhão entre a magistrada e a poetisa nós, os jurisdicionados, temos recebido o melhor do seu talento, no qual sobressai a visão social impressa em seus julgados. Neste mesmo espaço, escrevi certa feita, sobre meu hábito de, ao entardecer dos domingos e feriados, sentar-me a observar o verde do vale do Reginaldo, ainda um oásis de mata atlântica. O vinho, o verde, a noite a Leste e ainda o dia a Oeste, os últimos cantos dos pássaros que se recolhem, tudo leva-me a deliciosa introspecção, a arroubos poéticos passados que não superam a distância entre a mente e o papel. Mas, estas oportunidades, semanalmente repetidas sem deixarem de ser únicas, trazem-me à lembrança, também, escritos e poemas nascidos de outros corações. Da Cor do Passado é coletânea da poesia produzida pela escritora Elizabeth Carvalho, versos sem rebuscos que revelam ora a criança, ora a adolescente e a jovem, outras a mulher de coração pulsante. São poemas gerados em espontâneo abandono de uma alma sensível exposta em cada verso. Comovem os cuidados com coisas simples: uma trovoada, um brinquedo, os medos infantis, um pirulito. Esse último inspira a autora em singular poema ? Olha o Pirulito! ? que, embora sem a rigidez arcádica do metro e da rima, faz-me lembrar a preocupação social de Jorge de Lima em O Acendedor de Lampiões. (*) É advogado militante. ([email protected]).