Opinião
Orgulho de ser brasileira? Nem sempre...
| MIRIAN GUSMÃO CANUTO * Um enfoque recente da mídia televisionada deixou-me estarrecida: a absolvição do fazendeiro do Pará, mandante do assassinato da missionária americana Dorothy Stang. Em fevereiro de 2005, a Irmã Dorothy foi covardemente assassinada com seis tiros em Anapu-PA. A comoção mundial em torno do caso pressionou a justiça à apuração do crime contra a impunidade tão frequente naquela região. Vitalmiro Bastos de Souza, o Bida, foi anteriormente condenado a 30 anos de prisão. A lei penal brasileira prevê que as pessoas condenadas a mais de 20 anos sejam submetidas a novo júri. O fazendeiro beneficiou-se da lei. O que mudou entre os dois julgamentos? Amair da Cunha, principal testemunha da acusação, confessou ter intermediado o crime. Posteriormente, mudou radicalmente a versão. Há indícios de que ele tenha recebido R$ 100 mil do produtor rural. Ouvido pela polícia, Bida confirmou a entrega do dinheiro, mas justificou como sendo da compra de gado. Incrível! De acusador, o cidadão Amair passou a ser parceiro comercial! Mais uma vez, venceu a corrupção. Levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), publicada na sexta-feira, 09/05, mostra que mais de 70% dos aproximados 800 assassinatos registrados no Pará, em conflitos do campo, não foram investigados pelo Estado. Dentre eles, 150 transformaram-se em denúncia e apenas 92 viraram processos criminais. Nossas autoridades externaram sua indignação com a sentença. O ministro Marco Aurélio Mello criticou a cláusula do Código Penal e desabafou: ?É hora de rever essa norma?. O presidente Lula, também, manifestou-se: ?A absolvição prejudica a imagem do País no exterior?. A vida no Brasil tornou-se cada dia mais banal! A possibilidade de perdê-la, violentamente, é fato concreto. A marca da impunidade vai delineando um perfil obscuro do Brasil diante do mundo. Em noite de verão europeu, estávamos Cícero e eu, sentados numa daquelas aprazíveis mesinhas da Rua Macena, em Nice. Ao lado, um canadense dirigiu-me a palavra, interrogando a respeito do Brasil. Tratava-se do professor de Sociologia da Universidade de Quebec. Dizia-se chocado com uma matéria vista, há meses, sobre a chacina na Favela do Vidigal. Confessou-me jamais ter esquecido as trágicas cenas! Tentei atenuar nossa imagem. Evidenciei nosso progresso. Senti vergonha de ser brasileira! Precisa-se fazer, urgentemente, uma faxina no Brasil! Orgulho de ser Brasileira? Nem sempre... (*) É médica e empresária de turismo.