Opinião
Dimens�es da vida humana
| JOSÉ MEDEIROS * Gosto de uma expressão que repito de memória: ?Há sempre um momento no tempo em que a porta se abre e deixa entrar o futuro?. Os que não pensam nele se dão mal: na profissão, na vida familiar, em relação à dimensão das suas próprias vidas. Os moços, de hoje, serão idosos algumas décadas depois. Esse tema foi largamente discutido, num programa radiofônico, em que se tomou como desafio a resposta a seguinte pergunta: ?Viveríamos mais se cuidássemos mais da saúde e pensássemos que, fatalmente, a velhice chegará??. A resposta geral foi aquela que Nelson Rodrigues dava para perguntas semelhantes: ?Óbvio ululante?; ou seja, um sim amplo e sem restrições. Entretanto, a maioria das pessoas perde o bonde da história por pensar apenas no momento que passa, por viver cada idade como se fosse a última, por não imaginar que poderá chegar aos 60 anos (dado como início da velhice), 70, 80, ou mais. Os estudos sobre a progressão da vida humana mostram que, quem está nascendo em 2008, poderá viver de 90 a 100 anos, se souber cuidar-se adequadamente, aproveitando os avanços da ciência, engenharia genética, medicina e tecnologia. O Brasil é um País que envelhece a passos largos. A vida média dos brasileiros era de 35 anos; dobrou em menos de um século. Os idosos já constituem 10% da população, cerca de 20 milhões de habitantes. Muitos, em plena atividade produtiva conscientes de seu papel social. Entretanto, não são poucos, os mais pobres, abandonados a sua própria sorte, esquecidos pelos seus familiares e pela sociedade; vítimas da anestesia social, do esquecimento que é uma forma de morte antecipada. Salientem-se, por dever de reconhecimento, os heróis e as heroínas do cotidiano que utilizam parte do seu tempo para cuidar de doentes, idosos e desamparados, ?dando de si, sem pensar em si?. Em 1989, eu era deputado estadual e presidente da comissão que elaborou a Constituição Estadual. Naquele momento, fui procurado pelo dr. Sérgio Hora, geriatra, que me trouxe duas sugestões, que refletiam a preocupação com os idosos menos favorecidos. Essas propostas foram incluídas na Carta Magna. ?Art. 20 ? O Estado instituirá ambulatório destinado à assistência médica especializada para tratamento de idosos. Art. 29 ? Fica criada a Fundação do Bem-Estar do Idoso destinada à assistência especializada e ao lazer de pessoas com mais de sessenta anos de idade?. A letra fria da Lei caiu no esquecimento. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.