Opinião
Ila��es em xeque
| RONALD MENDONÇA * Embora ainda não completamente esgotado, muito já se tem dito sobre o assassinato da menina Isabella. Ferimentos no corpo e manchas de sangue no automóvel e nos aposentos da família são tidos como fortes indícios de ter sido violentamente agredida e dada como morta. Daí a decisão dos algozes de jogá-la pela janela de dezoito metros de altura. A finalidade parece clara: improvisar um álibi para esconder a bestialidade a que teriam submetido a criança . Ou seja, Isabella foi morta duas vezes. Atores canastrões, pela fragilidade do estratagema, não foi difícil chegar-se à conclusão da autoria da barbárie. Independentemente de provas materiais, a frieza dos familiares diante da perda foi a maior confissão de culpabilidade. Tudo parecia caminhar para uma vertente jurídica sobre a conveniência da prisão dos suspeitos, até que surge no meio das cinzas a figura do psiquiatra e professor aposentado de medicina legal, George Sanguinetti. Não obstante já ter prévia avaliação na província, o coronel da polícia (e hoje vereador) Sanguinetti atingiria históricos picos de consagração local, alcançando notoriedade nacional, ao discordar da perícia que apurou a morte de PC Farias. Na ocasião, o midiático legista Badan Palhares, da cidade de Campinas, teve suas conclusões postas em xeque. A bem da verdade, as ousadas análises do coronel surpreenderiam, até pelo fato de se saber que ele é um neófito no ramo. O fato é que, com o estardalhaço de praxe, o polêmico vereador volta à ribalta, contratado pelos réus com a missão de destacar possíveis incorreções no laudo pericial, que eventualmente possam lhes aliviar a barra. A qualificação de Sanguinetti mais uma vez está sendo severamente contestada. Nem por isso deve-se apelar para a origem alagoana (na verdade, é pernambucano). Aos preconceituosos, cabe lembrar (evitando insólitas comparações, é claro) que o conterrâneo Estácio de Lima foi um dos maiores legistas deste País. Do outro lado, especialistas da paulicéia estão se sentindo ultrajados pelas discordâncias (primárias?). A empáfia de ser de São Paulo e pertencer a uma casta de padrão técnico de incontestável qualidade pretende-se, equivocadamente, inquestionável. Num programa de TV desta semana, dois peritos paulistas se invocaram com o termo ?ilação?, em outro contexto, usado por Sanguinetti. A estranheza pelo geral dessaber corre por conta de ?ilações? serem justamente o arremate de toda perícia que se preze. (*) É médico e professor da Ufal.