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Opinião

Toga aben�oada

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| RAFAEL FEITOSA D?ALMEIDA * Ao ler o artigo Toga pendurada ? em que Antonio Sapucaia retrata sua íntima ligação com a túnica preta da magistratura ? pude compreender, como se me fosse concedido o poder de ler a sua mente, o quanto foi intensa a sua relação, na condição de juiz, com as vestes que lhe encarnavam a jurisdição, ao ponto de neles enxergar a reciprocidade que se pode extrair do texto assinado pelo ilustre autor. Na condição de testemunha ocular desse estranho matrimônio entre um homem e uma veste ? já que integrei a assessoria em sua rápida passagem pelo Tribunal de Justiça ?, pude constatar o imenso respeito que Antonio Sapucaia rendeu à sua túnica, permanecendo-lhe fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, como se fosse possível dedicar tamanha devoção a um modesto conjunto de panos e rendas que compõem a aludida vestimenta. Ainda que ambos não fossem casados ? Antonio Sapucaia e sua toga ?, jamais se poderia negar a união estável, pois a convivência entre eles era pública, contínua e duradoura, além de estabelecida com o objetivo de constituição de justiça, o que se revelava induvidoso com o seu comparecimento diário ao Tribunal durante os dois períodos do dia ou durante o turno vespertino, enquanto na condição de presidente do Tribunal Regional Eleitoral, em que sempre se dispunha a atender a todos, independentemente de classe, cor, raça, religião ou qualquer outro critério discriminatório. Para integrar sua equipe de trabalho convidou pessoas que, em sua grande maioria, nem sequer conhecia, apenas se pautando no referencial de idoneidade prestado por aqueles que lhe faziam as honras de apresentá-las individualmente. Depois de haver lido o seu artigo, passei a acreditar que somente após o assentimento de sua toga, é que ele deve ter conseguido selecionar assessores que, apesar de distintos sob os aspectos ideológico e comportamental, mostraram-se iguais no compromisso com os seus ideais filosóficos, concedendo-lhes a singularidade do seu convívio e o paradigma moral, doando-lhes um patrimônio inestimável sem que qualquer deles fossem galhos de sua frondosa árvore genealógica. Não é sem razão sua curvatura diante da túnica, pois esta além de fazê-lo juiz, tornou-lhe lavrador de sementes frutíferas e lapidador de diamantes jurisdicionais, fazendo com que legasse à sociedade não só um grande pomar de Justiça, mas também verdadeiras pedras preciosas em forma de textos, que devem ser lidos e relidos para a perpetuação da memória dos fatos e da grandeza de seu subscritor. (*) É escrivão judicial da Justiça Estadual.

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