Opinião
Quando somos in�teis � que nos tornamos �teis
| DOM FERNANDO IÓRIO * Quando nos apegamos aos resultados de nossas ações como o único meio de auto-identificação, tornamo-nos possessivos e defensivos, olhando nossos semelhantes mais como inimigos a serem colocados a distância do que amigos com quem deveríamos repartir os dons da vida. Na solidão, talvez, poderíamos, lentamente, desmascarar a ilusão de nossa possessividade e descobrir, no centro do nosso eu, que nós não somos o que podemos conquistar, mas tudo quanto nos é oferecido. Na solidão, podemos, de certo, ouvir a voz daquele que nos falou, antes de lhe proferirmos qualquer palavra; que nos curou antes de lhe dirigirmos o grito de socorro; que nos libertou, antes de libertarmos os outros; que nos amou, muito antes de amarmos os outros. Na solidão, aprendemos, que não valemos pelo que dizem ou pensam de nós, nem mesmo pelo que temos, senão pelo que somos. Na solidão (falo da solidão ? não do ?estar só? na angústia, mas do espaço exterior ou momento psicológico, em que ficamos a sós para refletir). É nesta solidão que descobrimos que nossa vida não é uma simples propriedade a ser defendida com grades de ferro, senão um dom a ser repartido com os outros. Na solidão somente, conscientizamo-nos da diferença entre o nosso valor e a nossa utilidade. Ficamos cientes de que somente quando somos inúteis para os sucessos estrondosos é que nos tornamos úteis para novos serviços onde ninguém tem coragem de servir. Conta-nos Tao que ?um carpinteiro e um aprendiz caminhavam juntos, na imensa floresta. Ao passarem por um carvalho alto, velho, nodoso e majestoso interrogou o carpinteiro ao aprendiz: sabe você porque é esta a árvore tão alta, bela e majestosa? Não, respondeu o aprendiz. Bem, disse o carpinteiro. Ela se conserva assim porque é inútil. Fosse útil, de há muito teria sido derrubada, cortada e transformada em tábuas e cadeiras, em móveis para ornamento das casas e repartições; mas, porque é inútil pôde crescer tão alta, tão bela, a ponto de você poder sentar-se à sua sombra e descansar?. Na verdade, quando somos capazes de criar situações em torno do nosso caminhar, então descobrimos que, quando somos inúteis para coisas atraentes e deslumbrantes, é que somos úteis para coisas importantes e valorosas que exigem reflexão no deserto do silêncio. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.