Opinião
Ast�cias das almas mortas
| ENILDO MARINHO GUEDES * Alagoas inova no trato com as almas. As almas sempre receberam a atenção dos homens, pois todos querem, na hora da morte, dar uma ?escapulidinha?, valendo-se da máxima da imortalidade. Quanto ao corpo, aquele veículo terreno, é desprezado, pela astuta e ingrata alma, sem dó nem piedade, para o banquete dos vermes. De fato, Platão morreu sem saber que, dividindo o homem em corpo e alma, teria possibilitado aos maniqueístas o entendimento de que o corpo deveria sofrer para salvar a alma. Até o doutor Agostinho embarcou nessa, levando com ele uma multidão até os dias de hoje. O sofrimento da peça escrava, do homem servo, do empregado moderno estava justificado, pois o corpo deveria sofrer. Quanto à alma, essa teria toda mordomia, mas só no paraíso. Na Rússia do séc. 19, os proprietários de terra pagavam impostos pelo número de ?almas? ? servos ? que possuíam ao seu serviço. No Brasil, muitos pastores contam os seus rebanhos como se almas fossem: na minha igreja tenho cinqüenta mil ?almas? para assistir. Alguns políticos alagoanos descobriram a importância do trabalho das almas e as vantagens que elas propiciam aos que lhes contratam: não ocupam lugar, não fazem greves, não adoecem, não bisbilhotam o chefe e principalmente devolvem os salários que recebem para o seu empregador. Dessa forma, não foi difícil ampliar o quadro das almas. As almas vivas ? aquelas que estão empregadas, não aparecem no trabalho, devolvendo apenas parte do salário; as almas mortas ? aquelas que ganham emprego depois de terem partido, devolvendo os salários integrais; e as almas fantasmas ? aquelas que não foram criadas por Deus, mas inventadas num cartório da periferia, devolvendo os salários integrais, também chamadas de almas documentais ou documentos puros. Essas últimas são inovações inusitadas da capacidade de alguns brasileiros. Ah! Ia me esquecendo de dizer que a bondade dessas almas é tamanha, que assinavam procurações para os seus senhores abrirem empresas, tomarem empréstimos e, ainda, receberem as suas devoluções do imposto de renda. Por gratidão, ainda podiam comparecer às urnas como eleitores fies. É mole? Se o ucraniano Nicolai Gogol ainda estivesse vivo, mais uma vez, queimaria a segunda parte do seu romance Almas Mortas e, certamente, incorporaria à esperteza do personagem fazendeiro comprador de almas, a habilidade dos nossos políticos em fazer um melhor uso delas. (*) É professor da Ufal.