loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Sem choro nem vela

Ouvir
Compartilhar

| ANA CLÁUDIA LAURINDO * A repetição pode ser utilizada como estratégia de convencimento, e em alguns casos é até indicada para garantir o aprendizado de regras e alcançar condicionamentos. Em outros casos, porém, se torna enjoada e levanta questionamentos. Falo da repetida afirmação da polícia alagoana, nos casos de homicídio, de que praticamente todos os mortos têm envolvimento com o tráfico! Será? E pelo menos em três casos recentes, há a sugestão de homossexualidade. Analisando as representações dessas imagens no imaginário social, poderemos ter uma manipulação inconsciente da opinião pública, que facilmente julga e condena o usuário de narcóticos e os gays. Quase automático: morreu porque estava do lado errado! Isso não é simplificar demais nossa gritante situação de insegurança pública alagoana? Nossas famílias vivem, então, o duplo drama de ter que se preocupar com a manutenção da vida e do nome dos parentes. Pois aquelas que estão perdendo seus entes queridos para a violência ainda têm que suportar o espezinhamento da memória desses indivíduos, vendo e ouvindo nossas autoridades sugerindo o envolvimento deles com o tráfico. Expor as relações homossexuais como fator de motivação para os crimes não é uma forma de acirrar o preconceito, comprometendo a luta contra a homofobia? Diante da complexidade de motivações que podem levar a um delito, não estamos jogando as fichas dentro de um limite extremo? Esperamos atentos o desenrolar de novos feitos diante da alarmada mudança dos nossos quadros da segurança pública estadual, mas não está sendo tão convincente quanto se acreditava! Pois creio que não seja de interesse dos alagoanos assistir aos lamentáveis espetáculos de repressão à periferia, como ação maior. Nós aguardamos a elucidação dos crimes, emblemáticos ou não, de forma mais respeitosa. Nada consegue deter nossa herança maldita de crimes de caráter político? Quantos mais morrerão até o mês de outubro de 2008? Há resposta para essas perguntas? Alguém está pensando no grito das mães, das filhas e dos próprios marcados para morrer? Precisamos acreditar que existe alguém assumindo para valer essa batalha contra a morte. Esse alguém pode se chamar Estado ou povo, pode se revestir de autoridade burocrática ou de legitimidade empírica, germinada na madrugada insone dos que não suportam mais acordar para nenhuma perspectiva de melhora. (*) É cientista social.

Relacionadas