Opinião
Um desejo de todos
| ELAINE PIMENTEL * Os meios de comunicação de massa noticiaram durante a semana a realização de uma passeata na orla marítima de Maceió, por iniciativa de uma escola privada, de classe média alta. Em foco, a defesa da vida. O evento poderia ser apenas mais uma manifestação, se não trouxesse em sua essência algo inovador no contexto da luta pela revalorização da vida: a participação da classe média. Explico. As principais vítimas da violência, em Alagoas, são os moradores de bairros pobres e periféricos da cidade de Maceió, onde predomina o tráfico varejista de drogas e toda a rede de violência que o acompanha. Embora essas mesmas drogas circulem com muita intensidade nos bairros nobres, a possibilidade do enfrentamento individualista da questão ? através de internação em clínicas particulares de desintoxicação no Sudeste e no Sul do País ? mascara um problema que merece um tratamento de natureza coletiva. Como usuários e pequenos traficantes, os filhos das classes média e alta aparentemente não estão envolvidos com a dimensão macrossocial do problema das drogas, sobretudo porque a questão é tratada como um verdadeiro tabu. Conseqüentemente, a mobilização de setores da sociedade civil no sentido de buscar meios para minimizar a quantidade de vidas perdidas para o tráfico de drogas normalmente não conta com o apoio da classe média. Sem o suporte financeiro necessário para livrar-se das drogas, os jovens usuários das periferias acabam por figurar como protagonistas no cenário devastador de violência e morte que ceifa uma média de 15 vidas a cada final de semana no Estado de Alagoas. A concentração desses números em bairros pobres sensibiliza mais as pessoas que vivem de perto essa realidade, que se expressa na vulnerabilidade das escolas, das ruas, e dos transportes coletivos, mas não produz o mesmo efeito nas camadas mais abastadas da sociedade alagoana. Por isso, é preciso enaltecer as iniciativas das classes média e alta em favor da vida, que destoam da normal apatia que predomina entre os moradores de prédios de luxo e condomínios fechados, que fazem de suas fortalezas arquitetônicas verdadeiras barreiras simbólicas para distanciar-se do grave problema da violência que tanto vitima jovens em nosso Estado. É preciso mais ainda: fazer ver que a paz e a revalorização da vida deve ser um desejo de todos. (*) É professora da Ufal e membro do Núcleo de Estudos sobre a Violência em Alagoas ? Nevial/Ufal.