Opinião
Deslumbramento
| JORGE BRISENO * Estava instalado, entre familiares, em um restaurante. Dividíamos uma boa conversa e um tinto honesto. Não sei se o amigo leitor já meditou sobre a existência de restaurantes, bares, cafés e botecos onde nos sentimos à vontade. São locais em que, por misteriosos desígnios, nos identificamos e dialogamos com a decoração interior, com suas cores, formatos das mesas, cadeiras etc. Essas percepções, evidentemente, mudam de pessoa para pessoa. Ah, desculpem, me perdi! Para o que tenho a relatar, esta observação não tem nenhuma importância. O encontro transcorria entre amenidades quando escutei, com uma sonoridade metálica, destacando-se entre a conversaria ensurdecedora do restaurante, na mesa situada às minhas costas, uma palavra: ?Dubai?. Devo aqui fazer uma breve pausa para declarar ao leitor amigo que sou um ouvinte atento. Arrisco afirmar que sou mais ouvinte do que falante. O Noaldo Dantas, em suas palestras ? e vejam se ele não está correto ? diz que ?nós devemos fazer, em lugar de cursos de oratória, cursos de escutatória?. Largo a tagarelice dos parentes e, em meio ao barulho dos talheres, tento divisar o que dizia a voz feminina às minhas costas. E explico por quê. Por uma dessas coincidências alucinantes, no dia anterior, eu tinha lido um artigo exatamente sobre ? imaginem só ? os operários de Dubai. Quase perdendo o fôlego e dando gritinhos de tanta excitação, ela falava sem interrupções ? parecia uma matraca ? sobre os hotéis encantadores que visitou em Dubai. Lembro que ela, entregue a um deslumbre enlouquecido, afirmava que um parecia um barco, outros ficavam em um arquipélago artificial, que um até tinha pista de esqui em pleno deserto... Shoppings ? desculpem o anglicismo ? monumentais por toda a parte, e por aí vai... Aquilo, caro leitor, me deixou inquieto, impaciente, enervado. Aguardei, quase explodindo de ansiedade, que ela tivesse um instante de lembrança sobre as pessoas que construíram aqueles lugares paradisíacos. Não, até retirar-se do restaurante a jovem não deu um sopro, um suspiro que fosse, não exalou um pio de compaixão em relação à situação de escravidão a que são submetidos os trabalhadores da construção civil ? na sua maioria, indianos e paquistaneses ? em Dubai. O número já ultrapassa 300.000. São seres humanos com as faces escavadas pela fome, vivendo na mais sórdida condição, na mais abjeta miséria onde a deslumbrada dondoca não suportaria viver um milésimo de segundo. (*) É engenheiro e diretor da Casal.