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Chantagem e morte

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| RONALD MENDONÇA * A morte da antropóloga Ruth Cardoso certamente passaria despercebida do grande público não fora a coincidência de ter sido casada com um presidente da República. Com um currículo acadêmico respeitável, não obstante desconhecido pela maioria, dona Ruth, na condição de ?primeira-dama? (denominação que não apreciava), teve oportunidade de ser reconhecida como uma pessoa diferenciada. Certamente dondoquices, frivolidades, tão ao feitio da mulherada que ocupa essa posição, não faziam parte do seu cardápio diário. Feminista, sem deixar de ser feminina, dotada de luz própria, nem ofuscou, nem foi a sombra do marido famoso. Contudo, a postura séria e discreta de Ruth Cardoso não a livraria dos ataques dos adversários. Recentemente, foi vítima de sórdida chantagem patrocinada pelo atual governo, sob o comando direto da pasta dirigida por dona Dilma Rousseff. Tudo começou há alguns meses quando estourou mais uma bomba no colo do governo. Descobriu-se, casualmente, é bom que se diga, veia aberta de despesas exorbitantes através dos chamados ?cartões corporativos?, maracutaia que privilegia milhares de graúdos servidores perdulários, mestres em desperdiçar o suor do contribuinte. Acuados, os dirigentes do País usaram aquelas velhas e cínicas táticas de defesa. Primeiro, negaram (?este governo não rouba e não deixa roubar?), depois, nada sabiam. Finalmente, aceitaram a pecha como ?excessos?, com a ressalva de que essas coisas foram herdadas. Foi aí que pintou a genialidade da equipe de Rousseff. Sentindo a pressão da mídia e dos opositores, deixaram transparecer a confecção de um dossiê sobre os gastos da era FHC. Na enxurrada, dona Ruth entrou no rolo. A finalidade foi clara: chantagear para calar a crítica. Moeda corrente da política, é evidente que a ministra e sua entourage não foram os inventores da matéria. Na literatura, a prática foi imortalizada pelo romancista Eça de Queiroz, na figura da personagem Juliana, em Primo Basílio. Amarga, invejosa e ordinária, Juliana descobriu adultério entre Luíza, a patroa, com um primo. A partir de então, a vida da infiel tornou-se um inferno, consumida por remorsos e pela perspectiva de o marido, o bom Jorge, vir a saber da traição. Luíza sucumbiria pelo peso da chantagem. A essa altura, sabendo-se que sofrimento mata, não é difícil imaginar as dores morais de dona Ruth ao longo dos últimos meses. Guardadas as proporções, Dilma reencarna a Juliana de Eça. (*) É médico e professor da Ufal.

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