Opinião
Dona Ruth e a morte s�bita
| MARCOS DAVI MELO * Dona Ruth Cardoso foi uma primeira dama singular na nossa história. Tinha luz própria. Antropóloga, foi um dos primeiros acadêmicos brasileiros a perceber a emergência dos movimentos sociais, que acolhiam as diversidades, tais como as feministas, as orientações sexuais e as étnico-raciais. Foi ela quem na década de 70 abriu a discussão nacional sobre estas questões então desprezadas pela Academia. Quando Sartre e Simone de Beauvoir estiveram no Brasil na década de 60, ela estava na primeira fila. Era politicamente muito independente do marido. Separou como ninguém o público do privado: só os amigos antigos tinham livre trânsito na residência presidencial. Foi a face franca e progressista do governo FHC. Quando alguém lhe perguntou sobre o senador Antônio Carlos Magalhães, disse de pronto, que o PFL tinha dois lados e ACM era o lado ruim; declaração que criou um grande transtorno. O então ministro Serra afirmava que recebia ordens dela, mas não de FHC. Ela falava e era ouvida. Dona Ruth morreu de morte súbita, esta que é uma das principais causas de morte em todo o mundo. Morte súbita é aquela que ocorre na primeira hora entre o início dos sintomas e o óbito. Desde que não se constatem sinais de trauma ou violência. Ocorre tanto em adultos como em crianças. Estas geralmente filhas de fumantes. Nos jovens e adultos, sedentários ou atletas, a grande maioria dos casos ocorre por doenças do coração. 75% das vítimas têm doença isquêmica por aterosclerose do coração, arritmias cardíacas e a grande maioria morrem nas primeiras horas da manhã. Alguns medicamentos inocentes, como descongestionantes nasais, drogas emagrecedoras, ou que atuam no sistema nervoso central, como estimulantes ou antidepressivos podem causar arritmias e mesmo alguns que tratam arritmias cardíacas, podem causar morte súbita. A vítima quando em pé, se inclina para frente, dobra levemente os joelhos, antes de desabar flácida no chão. A possibilidade de salvamento depende de o atendimento ser feito nos minutos iniciais. Conhecer isto é importante, principalmente nos casos dos atletas, pois muitos foram os vitimados e não só no futebol. O soldado Filipides, herói grego, patrono das maratonas, em 490 antes de Cristo, correu 42 quilômetros para dar a notícia da vitória da batalha de Maraton e caiu morto. Foi a primeira vítima desta patologia na história no atletismo. Resta um consolo: dona Ruth não padeceu interminavelmente em uma UTI. (*) É médico e professor da Uncisal.