Opinião
Eu tenho ferrovia no sangue
| JOSÉ MARQUES DE LIMA * O desmantelamento e sucateamento da malha ferroviária brasileira, principalmente na região Nordeste, pode ser até classificada como uma ação criminosa, devido aos prejuízos que acarretou, tanto de ordem técnica, e principalmente o imensurável prejuízo social. O resgate dessa situação vem sendo feito com muita competência e inquestionável seriedade ao longo desses 24 anos pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos, a CBTU, da qual faço parte há exatamente 22 anos. Ressalto aqui, sem favor nenhum e por pura obrigação de quem vivencia diariamente a vida ferroviária do País, a competência do comando nacional da CBTU, pelo seu presidente Elionaldo Magalhães, e toda a diretoria, que em menos de um ano de administração, vem reconstruindo de maneira efetiva uma nova visão do transporte ferroviário de pessoas, sensibilizando instituições, ministérios e a própria Presidência da República quanto a vital importância do transporte ferroviário de massa. Desde o ano de 2003, o governo federal passou a entender a grande importância que representa o transporte de pessoas sobre trilhos, exatamente como existe em dezenas de países desenvolvidos e em desenvolvimento, nas mais variadas regiões do planeta, como o mais importante fator de inclusão social. Na Índia, país populoso, vamos encontrar 60.777 milhas de via férrea, 7.030 estações e 11.200 locomotivas ativas, transportando 9 milhões de pessoas diariamente; na China, Japão, Alemanha, Estados Unidos, França, os governos sempre encararam como prioridade o transporte ferroviário, seja transportando cargas e principalmente pessoas. As estradas brasileiras, caras e de discutível conservação, nos levam a uma reflexão sobre a prioridade que foi dada em época passada para a construção de rodovias em detrimento da manutenção de uma malha ferroviária importante, já existente e ativa. Obviamente, não vamos entrar no mérito dos quilômetros de estradas, hoje inservíveis, mas gostaria apenas de lembrar que um dormente de madeira, que apóia o trilho, é capaz de durar 15, 20 e até 25 anos; e hoje, com novas tecnologias, dispomos de dormentes de concreto, que deverão permanecer ativos por até 60 anos. É claro que rodovias são importantes, afinal também transportamos e trafegamos através de carros, ônibus, caminhões e motos; no entanto, volto a afirmar que sucatear a nossa malha ferroviária foi um verdadeiro ato de irresponsabilidade e inconseqüência. (*) É superintendente da CBTU ? Maceió.