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Opinião

Solidariedade e amor ao pr�ximo

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| JOSÉ MEDEIROS * Quem conheceu Beatriz, na adolescência, em nada estranharia gestos ousados, independentes e pouco usuais. Seu pai, diplomata de carreira, fora secretário da Embaixada brasileira em Berlim, Paris e Bogotá. Agora, de volta ao Brasil, ela concluiu o curso de Medicina, admirada por suas habilidades no campo da cirurgia. Fez planos de futuro, de residência médica e doutorado. Entretanto, a sabedoria popular assegura que o homem põe e Deus dispõe. Na igreja que freqüentava, religiosas preparavam-se para uma missão na África. África? O desconhecido sempre fora um desafio à sua imaginação, ao seu espírito rebelde e místico. Tomou uma decisão: incorporou-se ao grupo, esquecendo os planos de futuro. Uma condição foi imposta: levaria seu irmão Rogério, de 15 anos, a quem dedicava amor de mãe. Um ano depois já se encontrava instalada no interior de um país africano. Ao derredor, miséria, fome, desalento, faces pálidas e encaveiradas tostadas pelo sol inclemente de um verão sem fim. Foi exaustivo organizar o pequeno hospital onde trabalhavam. Oito cirurgias realizadas naquele dia e Beatriz já agradecia a Deus por encerrar mais uma faina diária, quando uma ajudante gritou: chegou um doente do povoado vizinho, doutora; parece grave, acho que ele vai morrer. Beatriz calçou as luvas novamente e examinou o paciente: o diagnóstico era claro, um caso de apendicite aguda. O que fazer? O laboratório estava a vinte quilômetros e já fechara. Operar assim mesmo? Dúvida atroz que o senso humano irrita. Decidiu: operaria o adolescente, mesmo em condições precárias. Apesar da gravidade do caso, ruptura do apêndice, o adolescente sobreviveu. Os agradecimentos estavam nos olhos de pai e filho. Seu irmão Rogério voltou ao Brasil para estudar medicina. Formado, incorporou-se ao grupo ?Médicos sem Fronteiras?, voltando a outro país africano, localizado numa região de guerra civil, cruel e sanguinolenta. O que aconteceu com o dr. Rogério, ele conta, ainda dominado por intensa emoção: ?Um grupo revolucionário invadiu e tomou conta do povoado depois de assassinar vários moradores. Com ódio aos brancos, os invasores resolveram executar os médicos voluntários. Enquanto observava a execução, o chefe dos revolucionários reconheceu um dos médicos: ele era o irmão da doutora Beatriz que havia salvado sua vida dez anos atrás. A execução foi suspensa e todos foram libertados e colocados a salvo?. A prática da solidariedade humana e o amor ao próximo salvaram suas vidas. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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