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Opinião

Brecht e a dondoca de Dubai

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| JORGE BRISENO * A secretária irrompe na minha sala e dispara: ?Tem uma pessoa ao telefone querendo lhe falar. Não se identificou?. Surpreso, pergunto: ?Não será alguma reclamação de falta de água?? Parada diante de mim, ela suspira: ?Já indaguei. Ela disse que não e que o assunto é estritamente particular?. O amigo leitor irá concordar que um telefonema, ainda mais anônimo, abre uma porteira para o imponderável, para o inimaginável, como uma ?caixinha de Pandora?, de onde podem surgir a mais cavernosa tragédia ou a mais estupenda comédia. Entre a resignação e o assombro, apanho o telefone: ?Pois não, com quem falo e em que posso ajudar?? A voz feminina, do outro lado da linha, responde: ?Eu sou a dondoca deslumbrada?. Abro a boca em um esgar de surpresa. Recomponho-me e indago: ?Deslumbrada...! Dondoca...! Quê dondoca?!? Percebo uma elevação na entonação de sua voz: ?Vou lhe refrescar a memória. Sou a senhorita da viagem a Dubai, que você citou em seu artigo do dia 25 de junho, na Gazeta. A do restaurante, lembra?? Enquanto vasculho a mente, tentando lembrar, ela exclama com uma voz lamuriante: ?Não gostei do que você escreveu. Você me desdenhou!? Desconcertado, respondo: ?Desculpe, não foi esta minha intenção. Eu supus que...? Não me deixa terminar a frase e me interrompe abruptamente. Noto certo tremor em sua voz ao afirmar: ?Eu não tinha nenhuma obrigação de saber que os trabalhadores da construção civil, em Dubai, são tratados como escravos. Nunca me disseram isto!? Ai de nós! As coisas, caríssimo leitor, nunca nos são ditas em sua totalidade. Os fatos nos são descritos considerando-se apenas um lado, de uma única perspectiva. E você, amigo leitor, perspicaz que é, haverá de concordar que as coisas vitais são esquecidas, são desprezadas. Irritado, respondo: ?Lamento decepcioná-la, porém, o que é primordial é que aquelas maravilhas foram construídas por homens submetidos à miséria absoluta, e eu acho...? Neste instante sou bruscamente interrompido por ela: ?E o senhor não acha que foi o xeique quem construiu?? Apoquentado com a grosseria, digo: ?Não, não acho!? Então uma coisa prodigiosa me ocorre. Passo, como um autômato, a recitar, ao telefone, um trecho de um poema de Brecht, que me veio do recôndito da mente: ?Quem construiu Tebas, a das sete portas, / Nos livros colocamos nomes de Reis, / Mas os Reis, puxaram eles as pedras?? Antes de desligar o telefone, na minha cara, ainda a ouço dizer, irada: ?Ora, francamente, vá catar coquinhos!? (*) É engenheiro e diretor da Casal.

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