Opinião
Dos bem-te-vis aos pombos
| CLEÓPATRA SOARES * Chovia copiosamente. Em poucos minutos a água já fazia volume por sobre as ruas impermeabilizadas, crostadas de betume e brita. Sob a marquise do imponente prédio, procurei amparo. Na área da Ponta Verde o m² custa os olhos da cara e a alma de alguns. A chuva deu uma trégua. Ao sair do abrigo fui surpreendida pelo estardalhaço de um simpático e cativante bem-te-vi que cantava no alto do edifício. Parecia dar as boas-vindas ao sol que se mostrava timidamente, lá pelas bandas do Atlântico. E que me convidava a continuar meu exercício matinal. Falar em oceano, não faz tanto tempo, de onde estava (quatro a cinco quadras da orla) podia-se avistar o mar, sentir sua brisa. Agora, nem uma brecha... Reparei em volta, só paredões, paredões e paredões. De nomes tão esquisitos quanto despropositados, essas novas construções encerram um ?cosmopolitismo? incrível. São nomes italianos, franceses, espanhóis, ingleses, gregos, troianos e javaneses. Cercadas de calçadas tão frias quanto. A grande maioria desnuda, nem uma árvore. Quando muito, uns ralos jardins para dar um toque. Artístico? Sabe-se lá. Um ou outro plantam, ainda bem, elegantes palmeiras imperiais. Já encurtam o percurso dos pássaros. Estão ?engessando? e ?envenenando? o nosso espaço, encurralando todos nós. Que será da nossa bela e acolhedora cidade, se se continuar a construir nesse ritmo desenfreado? As poucas casas que ainda restam já estão todas condenadas? Quando se levará em conta o número de árvores derrubadas, com relação ao número de construções erguidas? E mais automóveis a circular emitindo gases poluentes? Terá a cidade estrutura para suportar o volume das águas pluviais com um solo tão impermeabilizado e um trânsito cada vez mais saturado? Já não seria tempo de uma nova mentalidade? Um projeto arquitetônico não deveria ser uma conjugação harmoniosa de seu interior e seu entorno? Ainda será tempo sim, quero acreditar ? de projetos urbanísticos sustentáveis. Que tal as autoridades competentes pensarem melhor sobre o assunto, dando-nos uma chance de sermos mais saudáveis? Qualidade de vida tem tudo a ver com respeito ao próximo e ao meio ambiente. Por que não preservar a beleza naturalmente privilegiada de nossa cidade com bastante área verde? Não seria o momento de mais praças, parques,canteiros? Em casa, encerrada minha caminhada, lembrei-me que os pombos (população aumentada) estão tomando o lugar dos bem-te-vis... Merecemos? (*) É dentista.