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| RONALD MENDONÇA * Já fazia algum tempo que não se via tamanha repercussão em torno da libertação de um prisioneiro como agora, com o desfecho favorável do caso de Ingrid Betancourt. Depois de seis anos nas mãos de terroristas, o resgate cinematográfico, ainda envolto em insondáveis mistérios, recebeu especial tratamento da mídia. Não resta dúvida de que o mundo globalizado investiu emocionalmente na soltura da militante franco-colombiana. De olho nos dividendos políticos gerados pelo caso, lutar pela sua libertação tornou-se cavalo de batalha. Do brutamontes Chávez ao beligerante Bush, passando, é claro, pelo muralista Lula Inácio e pelo presidente Uribe, da Colômbia, no frigir dos ovos, o governante mais interessado. Até o decadente Fidel Castro deu o ar da graça, ironicamente condenando as Farc por manter prisioneiros civis seqüestrados. Embora seja um tempo que não deixou saudade, mas já vimos esses filmes quando Nelson Mandela foi solto ? saiu da prisão para ser presidente do seu país, assim como com a libertação de Soljenitsin, autor do definitivo Arquipélago Gulag. A grande verdade é que a humanidade respirou aliviada ao ver o aspecto aparentemente saudável da simpática Betancourt. Como num trailer de ação, tudo o mais concorreu para mexer com o emocional. Desde as primeiras palavras de agradecimento a Deus, aos mentores do plano de resgate, à família etc. A própria Betancourt transmite a imagem de uma pessoa muito equilibrada, sem maiores rancores, não obstante os olhos tristes, uma das indeléveis marcas a testemunhar anos de sofrimentos, incertezas. A partir de agora, Ingrid Betancourt tem um leque de opções. Mártir ocasional das tempestades políticas de seu país, poderá recolher-se e escrever um belo depoimento. A vivência poderá também transformar-se num filme de verdade. Na vida pública, as vias estão abertas. No entanto, recompor-se familiarmente, retornando ao convívio com os filhos, depois de uma quase orfandade, é uma proposta assaz atraente. Olhando a Colômbia com uma mala sem alça como a Farc para carregar, a gente termina sendo grato por aqui mourejar. Nesse aspecto, até lamenta-se que as nossas cadeias não estejam repletas de gente de peso. Imagine um galpão com Zé Dirceu, Delúbio, Cacciola, Maluf, Valério, Silvinho Land Rover, Genoíno e seu irmãozinho cuequeiro e tantos outros. Sem esse trupe, temos de nos conformar com Fernandinho Beira-Mar, Marcola e outros menos cotados. (*) É médico e professor da Ufal.

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