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Opinião

Em torno do Grande Sacramento

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| DOM FERNANDO IÓRIO * A presença cosmológica e a dimensão ecológica nunca deixaram de existir no Grande Sacramento da Eucaristia. Embora estivessem presentes, foram essas dimensões tornando-se invisíveis na cultura ocidental, centrada no homem e na mulher e em suas obras. Assevera a liturgia bizantina que, no Monte Tabor, não foi Jesus que se transfigurou, senão as escamas que caíram dos olhos dos apóstolos e eles contemplaram o mestre na sua transcendental beleza. Jesus sempre fora Jesus. Eles que não enxergavam. Acontece que, ao descer do Tabor, a capa de argila retornou ao seu lugar e seus olhos não mais contemplaram o extraordinário do mestre, senão o seu ordinário humano. O que, de logo, semelhantes considerações suscitam é que, na celebração eucarística, o olhar dos fiéis e dos celebrantes, recobertos pelas escamas do antropocentrismo, pouco ou nada descobre e a beleza do cosmo fica esquecida, durante o ato litúrgico. Entendo e sou o primeiro a admitir que o nosso corpo reproduz a geografia do universo. Vez que os mesmos elementos químicos encontrados na terra se acham, também, em nosso corpo. A terra e o nosso corpo têm a mesma proporção de água:70%. Somos filhos da mãe-terra. Parece incrível, mas nossa respiração é boca-a-boca com a natureza: do nascimento à morte, jamais deixamos de respirar. Morreríamos, caso não absorvêssemos o oxigênio que nos é fornecido pelas plantas e algas do oceano. Já o gás carbônico, que expiramos, irá nutrir as plantas e os plânctons. Na natureza é-nos impossível viver sem comida e bebida. A propósito toda comida é vida que morreu para nos conservar: o arroz é um cereal que morreu para nos dar a vida; bem assim, o feijão, a carne (um animal morreu para alimento nosso). Cristo morreu para se dar como alimento na Eucaristia. Assim: viver é um movimento eucarístico. O corpo de Cristo foi sacrificado para ser alimento de todos os seres humanos. Daí, simboliza a Eucaristia o acesso de todos, sem exclusão, à comida e à vida, em torno da mesma mesa. De certo modo, quando a sociedade exclui esse acesso ? uma parcela da população está caminhando na contramão da direção eucarística. Dessa maneira, toda luta pela justiça, pelos direitos humanos, por maior igualdade social possui caráter eucarístico. Fine finaliter, é o próprio corpo de Cristo que é profanado na miséria do ser humano e na fome da humanidade. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.

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