Opinião
O espet�culo das algemas
| RONALD MENDONÇA * Num País onde impera o chamado ?Estado de Direito? é natural que conflitos de interesse extrapolem os limites dos tribunais e cheguem às praças e becos. Sob esse holofote colocam-se nesse momento em posições antagônicas, o presidente do STF Gilmar Mendes versus Polícia Federal e o Ministério da Justiça. No centro da disputa, apenas aparentemente, velhos conhecidos do noticiário: um banqueiro, um megainvestidor e um ex-político corrupto, dentre outras raposas. Infelizmente, como soe ocorrer, essa gente não chegou a esquentar o duro colchão do cárcere, beneficiada por decisão jurídica emanada da principal corte do País. Na visão do julgador, hoje não haveria sustentações plausíveis para cercear-se a liberdade dos acusados, a não ser por condenação em juízo. Há quem interprete que o parecer é fruto de rixa pessoal. É que, ultimamente, doutor Gilmar e alguns dos seus pares sentiram na pele o extravasamento de dados pouco recomendáveis para o currículo de um juiz do STF. Como a fonte dessas informações é atribuída à Polícia Federal, não é de estranhar que Mendes insurja-se com veemência contra a ?espetacularização? que a PF vem protagonizando a cada nova ação. Aliás, não se trata de desabafo de um ministro injuriado. Boa parte da opinião pública sente o cheiro forte da autopromoção, para dizer o mínimo. Vozes há que não escondem a suspeita de uso político da organização policial. O fato é que, ao lado de uma atuação elogiável, a PF tem passado a idéia de donos absolutos da verdade com direitos até de condenação prévia. O medo é que esses delirantes superpoderes criem asas e descambem para uma Gestapo ou uma polícia stalinista. Gilmar Mendes é reticente quanto ao uso das algemas. É um tema recorrente a cada nova operação da PF. Para o ministro socialista Tarso Genro, se o meliante do morro é algemado, por que não o contraventor de camisa de seda, se a lei é igual para todos? Diante desse argumento, cabe perguntar: quem oferece mais risco de correr, pegar uma arma do policial e sair atirando, o Fernandinho Beira-Mar ou o Celso Pitta? Humilhantes, algemas são assunto polêmico quando se trata de gente rica e poderosa, que não oferece resistência, sobretudo na ausência de assassinatos e tráfico de drogas. Golpes em bolsas de valores, safadezas nas transações comerciais, tudo isso é visto pelo povão como ?roubos limpos?, sem violência física. Daí, talvez, a repulsa pelas temidas argolas. (*) É médico e professor da Ufal.