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O brasileiro cordial

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JOSÉ MEDEIROS * Numa época marcada pelo excesso de informações, aceleração do processo de aquisição de conhecimentos e progressos na ciência e na tecnologia ? a existência humana é contínuo reajustamento a mudanças e desafios. O conhecimento de hoje pode estar ultrapassado amanhã. Um livro científico publicado, ao chegar às livrarias pode não representar verdades em relação a resultados de pesquisas já conhecidos. No passado não era assim. Não faz tanto tempo, nas décadas de 50 a 80, distinguiam-se grandes acontecimentos, que registravam razoável espaço no calendário entre seus aparecimentos. Há 50 anos pessoas morriam de tétano, gripe, coqueluche e difteria. Paralisia infantil fincava preocupações diárias nas famílias, era uma tragédia para as crianças atingidas por essa moléstia. Uma simples vacina evita essas doenças. Isso não quer dizer que tudo esteja bem em relação à saúde do brasileiro, mas quer dizer que avanços na prevenção e no tratamento de doenças alcançaram níveis jamais imaginados. Decepção: tuberculose, hanseníase e dengue são absurdos problemas sanitários ainda existentes. Entretanto, para alegria geral, estão em curso nos EUA vacinas contra o câncer de mama e do útero. Tenta-se, em São Paulo, a descoberta de vacina contra a esquistossomose mansônica, enfermidade dos populares barrigas-d?água, que perambulam às margens dos rios no Interior. O ser humano começa a desvendar o genoma, o código genético, dicionário das estruturas mais íntimas do corpo e com isso será evitado grande número de doenças hereditárias. Se tudo isso acontece em relação à Medicina, o mesmo ocorre nos mais variados setores da atividade humana. Pode-se parafrasear um antigo conceito: ?os conhecimentos enchem a terra, assim como as águas enchem os rios e o mar?. Ensombram essa evolução intelectual e científica a consciência dos muitos contrastes existentes, disparidades econômico-sociais, pobreza e dificuldades de vida da maioria dos brasileiros. Deus é brasileiro? ? Sim. Há fortes esperanças e perspectivas de um futuro melhor. O Brasil do futebol, do carnaval, das grandes exteriorizações de alegria na Copa do Mundo avança com passos regulares no campo da ciência, da pesquisa e da tecnologia. O escritor Gilberto Freire criou o mito de uma raça forte, destemida, inteligente, vencedora, produto da democracia racial que uniu brancos, negros e índios, no período da colonização. Anos mais tarde, na obra ?Raízes do Brasil?, Sérgio Buarque de Holanda consagrou a denominação de ?brasileiro cordial?. Aparentemente, uma referência a sua vocação para a concórdia, bondade e afetividade. Homens e mulheres fortes sabem resistir às adversidades, dizia Gilberto Freire. O ?ser cordial? de que fala Sérgio Buarque, pode ter também o sentido de definir pessoas vibrantes, apaixonadas, exaltadas, entusiastas. Cordial, relaciona-se ao que pertence ao coração, ou ao que vem dele. Afinal, essas duas concepções reunidas talvez expliquem o fato, miraculoso até, de que para o brasileiro as coisas podem até começar mal, mas terminam quase sempre bem. E que venham franceses, argentinos, ingleses e alemães dizer em que essa herança genética não é boa... (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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