Opinião
Oito �rvores
| JORGE BRISENO * O noticiário, na televisão, seguia monótono, modorrento. Não apresentava nenhum atrativo especial, nada que retivesse minha atenção. E aí, inopinadamente, diria quase de supetão, aconteceu. Eu vi, quase lutando com os meus próprios olhos, que estavam na iminência de fechar de tanto tédio. Homens, uns seguindo os outros, apareceram na tela da televisão, enfileirados e disciplinados. Apareceram, como que vindos do nada, em grande estilo. Todos a bordo de bens cortados ternos. Pareciam caríssimos. Entre eles, destacava-se uma mulher, elegantemente vestida, trajando um conjuntinho que minha filha, ao meu lado, explica que é um ?tailleur?. Faço uma pausa para confessar ao simpático leitor que sou completamente ignorante sobre assuntos de moda e suas tendências. A indumentária que a honorável senhora usava para cobrir o corpo me pareceu ainda mais dispendiosa que os ternos que os homens trajavam. Mas volto ao assunto. Todos, sem exceção, pareciam infatigáveis e cônscios na sua missão civilizatória. Principalmente ela, que ? como convém a uma dama, nessas ocasiões que exigem pompa e liturgia ? estava com a fronte erguida e o nariz empertigado. Ah, amigo leitor, desculpe-me! Quase ia esquecendo de descrever o cenário que se descortinava ao fundo de onde se encontravam os sete homens e a mulher. Esplendoroso! Arrebatador! Até onde os meus cansados e sonolentos olhos divisavam, parecia um bosque, exuberante, com muitas árvores, com leves ondulações e com um gramado mais verde do que o de um campo de futebol. Esqueço o bosque e perscruto o que estavam a fazer: todos, quase em uníssono, apanham pás e começam a cavoucar o solo. Abrem buracos, circunferências perfeitas, simétricas. Apanham mudas de árvores e as colocam, com um cuidado maternal, dentro das covas. Tornam a apanhar as pás e lançam terra, fechando os buracos. Após isto deram-se as mãos e posaram para os fotógrafos, cientes da relevante missão a que tinham dado cabo. Afinal, eles e ela, sabiam que a humanidade os observava. Os líderes do G8 tinham acabado de oferecer sua contribuição para combater os efeitos do aquecimento global. Eles tinham plantado oito árvores para, ao crescerem, capturarem o nefasto dióxido de carbono que seus países produzem em doses gigantescas. As medidas definitivas? Essas eles deixaram para adotar no longínquo ano de 2050. Afinal de contas ? não sejamos impertinentes ?, plantar árvores é um trabalho exaustivo. (*) É engenheiro e diretor da Casal.