Opinião
Notas para o Ano Paulino: 2.000 anos do seu nascimento
| DOM ANTONIO MUNIZ * Na Igreja experimentamos também o forte acento da exterioridade em modos de vida e em comportamentos e atitudes as mais diversas, desde as lojas de moda eclesiástica, aos grandes espetáculos da mídia católica, nos quais o sensorial é por demais acentuado. Esta realidade está tão intrinsecamente arraigada ao esquema cultural de nosso tempo, que muitas vezes é assimilada quase que de forma inconsciente. Só é aceito quem aparece e atende aos apelos e exigências da mídia. Isto contagia o mundo, a Igreja e determina o comportamento de muitos daqueles que assumem a função ministerial a serviço do povo de Deus. A mídia dita padrões de comportamento e, entorpecidos pelo seu fascínio, simplesmente nos deixamos possuir pelos seus encantos, mesmo que seja só por um instante. Em nosso contexto particular, valoriza-se por demais a aparência. Em algumas situações, deparamo-nos com indivíduos revestidos com uma aura exterior de aparente seriedade no que diz respeito à vida e, no entanto, interiormente assumem comportamentos espúrios e completamente avessos à condição de Batizados e filhos de Deus e isto não mexe em nada na dimensão da consciência moral. Mata-se e rouba-se, como se nada tivesse acontecendo! ?Não vos conformeis com o espírito deste mundo?! Há um forte acento no efêmero. As coisas duradouras perdem a consistência e em muitos casos, até o sentido mesmo. Tudo tende para o imediato, o instável. Vive-se a ideologia do espontâneo. Cultiva-se o gosto pela novidade, mas que por aquilo que é verdadeiro. Tudo passa, num movimento alucinante e o limite da duração das coisas é determinado pela próxima novidade que se estabelece como verdade ?absoluta enquanto dura?. Trata-se claramente de uma fuga sem êxito e sem resultado algum. É um gênero de vida construído sobre a areia e um claro sacrifício da verdade. Vivemos somente para o presente, o hoje nos basta. Isto faz com que percamos a dimensão de memória enquanto valor essencial para a construção da identidade pessoal e coletiva. Perde-se o contato com o passado, vive-se o ritmo frenético do presente e, por conseguinte, a perspectiva de futuro deixa de existir. Vive-se o presente de forma superficial, como se ele fosse absoluto. Esta superficialidade dita a razão da vida. Sacrificamos a verdade em detrimento de um nada de existência e de sentido! São Paulo, neste jubileu de seu nascimento, vai muito nos ajudar e recompor este quadro da existência cristã, ele mesmo vai nos ajudar a dizer mais uma vez: ?Para mim viver é Cristo?! (*) É arcebispo metropolitano de Maceió.